UM LUGAR SILENCIOSO


Em pleno 2018, com filmes estrondosos que fazem a sala de cinema vibrar, nos deparamos com um filme quase inteiramente silencioso. Quando imaginei como seria ver esse filme no cinema confesso não ter tido uma visão muito positiva, mas a experiência em si foi o contrário do que minha imaginação previa. O filme é bastante silencioso, mas não perde o espectador em momento algum e o silêncio só colabora para criar um clima ainda mais tenso e desesperador. 

O filme não explica detalhes sobre seu contexto, foca completamente no dia-a-dia de uma família que enfrenta as criaturas que assolaram a espécie humana. Essas criaturas são terríveis, sanguinárias e cegas, portanto, o que provoca sua atenção para uma matança sem fim são os barulhos. Sendo assim, podemos resumir de uma forma bem simples: se você fizer barulho, você morre. A família vive de uma maneira completamente silenciosa, se comunicando em libras e prestando atenção aos pequenos detalhes para que não aconteça nenhuma desgraça. Obviamente que eles não conseguem evitar algumas coisas e... 

Vamos conhecer um pouco melhor essa família, começando pela mãe, a Evelyn (Emily Blunt), vemos nela uma personagem que representa uma força única que só as mães podem representar, ela é calma e forte, a atriz deu um show de interpretação com essa personagem. Temos o Lee (John Krasinski), o pai da família, é ele que cuida de todos, que traça estratégias de sobrevivência e transmite perfeitamente o estresse e a pressão de ser o cara que tem que proteger todos aqueles que ama. Eles tem 3 filhos pequenos que nos proporcionam momentos extremamente angustiantes, para dizer o mínimo. 

Cuidar de crianças em um ambiente horrível e silencioso como esse é praticamente uma missão impossível. Só de lembrar já fico tensa!


ROTEIRO E AMBIENTAÇÃO

O roteiro do filme me fisgou no momento em que vi o trailler, achei aquilo tudo genial e promissor. Ao assistir o filme todo me vi completamente envolvida e participando daquela história, sofrendo, sentindo meu corpo todo ficando cada vez mais tenso. Passei nervoso. Eu estava com medo de fazer barulho e desgraçar a vida de algum personagem (risos). Acredito que todos ali naquela sala estavam com a mesma sensação, pois nunca vi uma sala de cinema tão silenciosa e tão tensa! É agonia pura. Que delícia!

Sendo assim, o trabalho de ambientação obteve total sucesso, realmente me senti parte daquilo, comprei a ideia e adorei. Os personagens ajudam a te convencer e entrar ainda mais na história, no entanto, não são exatamente bem explorados e rolou uma forçada de barra em algumas cenas. Essas coisas sempre acontecem em filmes de terror/suspense, mas foi um pouco difícil engolir e aceitar certas coisas nesse filme. Mas ok, a construção e exploração dos personagens nessa história cruel poderia ter sido melhor, mas não posso mentir e dizer que isso atrapalhou minha experiência, ainda assim me entreguei 100%. Com seus 90 minutos de duração, entrega tudo que promete: muita tensão, agonia, desespero e um silêncio assustador. 


O SOM (OU A FALTA DELE)

O ponto alto do filme é o silêncio. A direção do John Krasinski é absolutamente cuidadosa, paciente e intensa. Cuidosa porque você percebe que o filme te pega pela mão e te leva pelo caminho que ele quer, te deixando num estado de nervos que ele deseja, colocando tudo no lugar certo. É paciente porque o diretor não apressa a história, ela tem seu ritmo fluindo dentro do seu próprio tempo. E por fim, é intensa porque te deixa sem fôlego do começo ao fim. Um trabalho excelente. 

O silêncio todo que o filme apresenta é perfeito para construir o Terror. Terror com T maiúsculo mesmo, hoje em dia o terror tem uma nova roupagem e filmes como Um Lugar Silencioso mostram que esse gênero ainda é muito poderoso, incrível e tem potencial para ser inovador. 

Adorei o fato de sentir medo de ruídos e qualquer barulho produzido na sala de cinema parecia causar ainda mais tensão. Ou seja, o filme utiliza de maneira perfeita todo esse potencial assustador do silêncio e as cenas silenciosas foram aquelas que mais funcionaram, foram as cenas mais tensas e assustadoras. No entanto, o filme tem uma trilha sonora que funciona em alguns momentos, mas atrapalha em outros e o que realmente funcionou foi o silêncio e a forma incrível como foi explorado.

Fiquei me imaginando vivendo aquela situação, de não poder fazer nenhum barulho e... morreria de primeira, com toda essa minha distração e meu jeitinho atrapalhado de ser, seria devorada por aquela criatura assustadora. Aliás, a criatura também convence bastante, é realmente assustador ouvir o som que ela produz e é mais assustador ainda vê-la em cena. Mesmo com baixo orçamento o filme conseguiu produzir um monstro que me deixou tão tensa quanto o Alien.

Para finalizar: o filme é excelente, com uma direção impecável, entrega o que deveria entregar, me entreteu e me deu uns bons momentos de desespero, final que achei FODA e meu único ponto negativo é aquela forçadinha de barra com os personagens (que irei comentar melhor na parte a seguir, com spoilers). Tirando isso, o filme é perfeito para nós, fãs de um terrorzinho gostoso.

E fica o lembrete:
NÃO FAÇA BARULHO NA SALA DE CINEMA! Eu tive uma experiência excelente, mas não duvido que o público consiga estragar a experiência sensorial desse filme. É um filme para assistir ali bem quietinho, comendo sua pipoca bem devagar, sem piscar e quase sem respirar de pura tensão. Se entregue e não estrague a experiência do coleguinha! 


SPOILER ALLERT 

Se você não viu o filme, cuidado... tem muitos spoilers a seguir!

Me diz uma coisinha só: porque aquela mulher teve que engravidar?! Achei isso meio nhé, apesar de que a cena em que ela está quase parindo foi o auge de tensão e desespero. Mas naquela situação em que eles estavam (ainda mais depois de já ter perdido um filho pequeno), engravidar seria a última coisa que eles deveriam fazer, meu deus do céu. Ok, isso me incomodou um pouco, mas vou superar. Afinal, filmes assim sempre forçam a barra em alguma coisa. 

Sobre o final: achei sensacional! A Evelyn (EmilyBlunt) tem bastante destaque no filme - e está maravilhosa, por sinal - e simplesmente amei ela ficar ainda mais BADASS no final. Amei mesmo. Achei que naquela cena final cada personagem se encaixou no que vinha apresentando durante o filme, a Evelyn se viu no papel de proteger os filhos e mostrou que fará de tudo para realizar isso, que mulher! A filha, que vinha se mostrando interessada em fazer alguma diferença real, finalmente pode ter seu momento.  E o filho, aquele fofinho, que sentia medo e não queria se envolver muito, ficou ali, protegendo o irmãozinho enquanto as mulheres mandavam ver! 


Cena fofa: o momento em que a Evelyn compartilha o fone de ouvido com o marido e eles dançam. Essa cena mostrou uma sensibilidade tão grande em meio ao caos que estava acontecendo. Foi um momento de respirar e até soltar um risinho ainda tenso e suado. 



Rita Zerbinatti, 26 anos, professora, apaixonada por Ficção Científica, dias chuvosos, séries de TV e café. Quer saber mais?Clique 
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