MÊS DAS MULHERES | AS POESIAS DA MARIA CAROLINA



Foi justamente no momento em que eu estava tentando alcançar uma ideia - que estava quase ali em minhas mãos, mas simplesmente não conseguia pegá-la - recebi uma mensagem no Instagram. Tudo bem, pensei, vou dar uma olhada no que está rolando e depois volto para perseguir essa ideia. Abri o aplicativo e no meio de algumas mensagens encontrei a Maria Carolina. Ela estava me apresentando seu trabalho e foi justamente nesse momento que eu consegui, alcancei a ideia. Yes

Me apaixonei pelas poesias da Maria Carolina instantaneamente, nem pensei duas vezes ao convidá-la para escrever um pouco sobre ela e sobre seu trabalho para que eu pudesse enfeitar esse nosso cantinho e trazer algo diferente. Já aproveito e peço para vocês acompanharem a página dela no Instagram, é maravilhoso! 💓

Espero que gostem desse formato e se você aí também tem algo de incrível para me mostrar, não se acanhe, quero ver tudo! ;)



Meu nome é Maria Carolina, tenho 21 anos, sou estudante de Direito pela UFLA (Lavras – MG) desde 2014. Entre um e outro rascunho em prosa ou poesia, faço pesquisa na área de Teorias Feministas do Direito, sou membra-fundadora do Coletivo Mulheres da UFLA e do Clube do Livro Index. Componho, também, dois núcleos de estudo voltados à relação entre Direito, História e questões sociais. Adoro plantas, Frida Kahlo, garimpar literatura, café coado, maçã com pasta de amendoim, minhas gatas Ciça e Pandora e um corte de cabelo acima dos ombros. Parei de comer carne e estou tentando voltar a desenhar. Fátima, Bárbara, Valdecir e Lucas – mãe, irmã, pai e amor – são meus alicerces. Meu pai, a pedra de toque de tudo o que escrevo, desenho e me arrisco, é minha maior inspiração e meu grande incentivo.

Quando criança, tinha um caderno de poesias, contudo, só no ano passado voltei a ouvir essa paixão antiga. Os versos chegam até mim de mãos dadas com alguma inquietação e, ao escrever o primeiro, este vai puxando outras palavras, arrastando alguma rima, espalhando alguma estética, as estrofes sendo bordadas não necessariamente na ordem em que são dispostas ao final, mas necessariamente o último verso sendo o último a se encaixar. Uma ansiedade característica daqueles que compõem o fim da fila, não menos importantes e, ao mesmo tempo, portadores da responsabilidade de costurar um bom arremate. Assim nascem as pequenas manifestações poéticas. Escrevo sobre tudo o que sinto estar fora do lugar. E, porque sou mulher, 24 horas por dia angústias e anseios me procuram implorando para tornarem-se verso, basta que eu escolha um e o entregue papel e lápis.

Algumas poesias:


EU QUERO

Na rua me querem santa,
Na cama me querem puta.
No trabalho, um nó em seus estômagos
Quando meu nome disputa
o cargo, a ideia,
a palavra.
Em segredo me pedem ajuda,
Mas em público me querem muda,
Calada, alienada, anoréxica,
bulímica, incompleta, infeliz.
Querem-me silenciosa
E nua.
Mas mesmo que queiram tanto,
Tanto se frustarão,
Que viverão engasgados
Por um patriarcado rançoso
Que não sairá de suas gargantas:
Um vômito frustrado
Que no meio do caminho
foi forçado a voltar
Pois as pessoas ao redor
Teriam nojo de vê-lo.
Porque sou mulher.
E mulher é sujeito coletivo.
Porque sou luta.
E podem me querer boneca,
Mas eu quero ser bruxa.

CAROLINA MARIA DE JESUS

Toda a dor e toda a luta
no quarto de despejo.
Carolina de Canindé
fez diário da ralé,
de todas as Marias
de Jesus e de Olorum.
Retratou a vida em cores
mas gostaria fosse opaca
porque a fome era amarela
e nas vivências da favela
essa cor era comum.
Dos seus livros publicados
a pergunta que pairava
Pode, uma favelada, escrever?
Mas, por cada letra eternizada
a pergunta, sensata, se refez
Sabe, a burguesia, ler?
12 SEGUNDOS

Despe.
Despela.
Descalça.
Desalinha.
Despede.
Desnutre.
Desfigura.
Descabela.
Desmanda.
Desmembra.
Descompassa.
Desassossega.
Doze palavras
que são mais que amontoado.
uma palavra por segundo,
uma mulher violentada
ao fim de cada leitura
deste poema.









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