CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA - HARUKI MURAKAMI


" Vejam bem, todas as coisas são complexas e, ao mesmo tempo, muito simples. Essa é a regra básica que controla o mundo."

O Haruki Murakami é aquele cara que divide opiniões. Muitos amam, muitos odeiam e alguns nem o consideram como Escritor (não sei quem esses aí pensam que são... mas ok). No entanto, não pode-se negar que ele tem um talento estranhamente irresistível, impossível simplesmente largar ou esquecer uma história contada pelo Murakami. Nas páginas dos livros desse autor você encontrará metáforas profundas (que, na maioria das vezes, sinto que não consigo captar), personagens melancólicos e um ambiente surreal e esquisito. Dá pra resistir?!

Eu não sei qual é a mágica do Murakami só sei que ela sempre funciona comigo. Toda vez. Eu sempre adoro essa atmosfera esquisita, distante e ao mesmo tempo extremamente familiar. Não foi diferente com Crônica do Pássaro de Corda, e dessa vez ele conseguiu atingir um novo nível de esquisitice (eu ainda não li Kafka à beira mar ou Norwegian Wood, mas ouvi dizer que também são leituras bem diferentonas). Nesse novo nível de esquisitice ele me levou para um outro mundo e me fez pensar na minha existência, na vida, na morte e no sentido das coisas. 

Sou dessas que adora buscar um sentido nas coisas, uma resposta vaga, na maioria das vezes, não sustenta a minha sede. Esse é um dos motivos de gostar tanto de ciência: a resposta tenta ser mais certeira possível. Gosto disso. Mas confesso que no fundo eu tenho uma conexão muito maior com coisas inexplicáveis. Desde criança eu já amava os grandes mistérios da humanidade, simplesmente não me cansava de perguntas que não tinham respostas. Se você vier contar algo que começa com "ninguém nunca descobriu como..." pronto, já ganhou totalmente minha atenção. 

Esse é um dos motivos que me faz ter um encanto tão profundo com o Murakami. Ele pega minha mão e me leva nesse caminho onde encontro muitas perguntas sem respostas. Fico perdida e completamente fascinada por esses mistérios, poderia passar horas lendo e falando sobre coisas que, no fundo, não chegam em lugar nenhum, só servem para atiçar nossa curiosidade e encanto.

Nesse livro temos um casal estranho, daquele tipo que não parece estar em sintonia. Logo percebemos que algo de errado não está certo, mas tudo perde o controle (e o sentido) depois que o gato deles some. O gato pertence à esposa que pede para o marido procurá-lo a qualquer custo, e a partir daí coisas estranhas começam a acontecer. Muitas coisas serão perdidas, muitas coisas serão encontradas. Um resumo bem esquisito, não é?

Crônica do pássaro de corda se tornou um dos meus livros favoritos por vários motivos, especialmente pelos personagens. Cada um deles é tão particular e alguns são tão estranhamente parecidos comigo que confesso ter pensado: "hey, Murakami, você inspirou esses personagens em pedaços de mim? Que honra!" E te digo uma coisa, o capítulo 8 me destruiu. Nesse capítulo uma das personagens mais simbólicas e excêntricas da história conta um pouco sobre sua vida e wooow. Apenas, wooow! 

"Decidi morrer justamente por causa do sofrimento. Por causa da dor. (...) Não estou falando de dor psicológica, de dor no sentido figurado. Estou falando de dor física, literal, diária e pungente."

Outro aspecto interessante desse longo e louco romance é o vazio. A falta de. A forma como cada personagem carrega esse vazio é intensa, bonita e dolorida, pois logo percebemos que também temos os nossos próprios vazios que carregamos secretamente. "A soma de um coração vazio e um corpo vazio só pode ser uma vida vazia." Não queremos uma vida vazia, um corpo vazio, um coração vazio. Os personagens também não, mas muitas vezes esse vazio parece ser maior, parece querer engolir tudo e eu diria que esse é o resumo do que foi esse livro: um vazio tomando conta de tudo, uma luta para que a vida não se torne apenas isso. Se for necessário, chegaremos no fundo do poço.

Eu consigo visualizar a Patti Smith lendo esse livro e ficando obcecada pelas mesmas passagens e personagens. Sabe, no livro Linha M ela nos conta que ficou fascinada por esse romance e não conseguia largar, lia e relia freneticamente. Ela queria ir até o Japão para encontrar a casa tão famosa no romance. Eu senti uma louca vontade de ir com ela. Achei tudo isso lindo e de uma sincronia absurda, pois ao mesmo tempo que lia Crônica do pássaro de corda também estava lendo "Linha M". Wow. Minha cabeça explodiu e deu trabalho para juntar os cacos. 

Crônica do pássaro de corda também é sobre obsessão e em vários momentos eu me senti obcecada com tudo naquela história. Não tanto quanto a Patti Smith, mas obcecada do meu jeito. Eu ia dormir pensando na história e me sentia parte dos personagens, ou sentia que eles eram parte de mim e que nunca conseguiríamos de fato nos separar. Não conseguia chegar na essência daquilo tudo e queria muito chegar lá. Chegar no fundo do poço, encontrar com a escuridão absoluta. Eu até me tranquei no quarto completamente escuro para ver se teria alguma experiência esquisita, se iria encontrar a parte que faltava ou se iria encontrar com meu verdadeiro eu. Só para vocês saberem: nada aconteceu. 

Nada de tão esquisito assim acontece comigo. Só de vez em quando.





Rita Zerbinatti, 26 anos, professora, apaixonada por Ficção Científica, dias chuvosos, séries de TV e café. Quer saber mais?Clique 
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