DEPOIS DE LER CLARICE SÓ ME RESTA A POESIA


Tive o prazer e privilégio de terminar a leitura de A Hora da Estrela. Profundo, dolorido, marcante. Esse livro pode ser muitas coisas, pode ser tudo. Pode ser o sim, o não, o átomo, o infinito. É lindo a forma como a Clarice escreve e como ela monta e desmonta sua narrativa, sua história, seus personagens. Tudo parece como um jogo prazeroso de crianças. Seu narrador, um escritor problemático, é quem nos guia com uma mão por vezes firme, por vezes solta e perdida, nessa triste história da nordestina. Ele tinha que nos contar essa história, se não morria. O que é isso morrer? Morrer por uma história? Me pego pensando em como é estar morto. É como Macabéa? Tantos questionamentos e pensamentos. E sentimentos. Parece que me sinto no meu auge ao ler Clarice. É claro que meu auge pode não ser grande coisa e nem eu mesma sei se é bom ou ruim tudo que sinto, porque é sentimento demais, é intenso demais, o peito parece que não vai aguentar. Entendo a necessidade da escrita, é real, isso também chega em mim, apesar de não saber direito o que fazer com tantas palavras. Não sei usá-las, mas gosto de fingir que sei. Gosto de brincar. 

A personagem da Macabéa me atinge forte demais mesmo sendo um nada, um zero à esquerda, um ser vazio e ralo. Me atinge por que me identifico, e eis o perigo de ler Clarice: como posso me identificar com um personagem vazio e ralo? Pois parece que é assim mesmo. Parece que ela sabe cutucar tua essência e te fazer rever a vida com outros olhos. E ás vezes, ou sempre, esse olhar que ela te põem na cara te mostra uma vida diferente, uma vida crua, que tem sua beleza mas dói demais. Parece que ela te mostra uma verdade quase insuportável. Cai a máscara, aquela que usamos diariamente para fingir tantas coisas.


- Oi, tudo bem com você? *sorrisos*
- Ah sim, estou bem e você? *sorrisos*
- Estou ótimo! *sorrisos*


Por trás da máscara o sorriso não existe. Muitas vezes só a dor existe. Mas a máscara não deixa que as outras pessoas vejam tal coisa, parece algo horrível, o tal sentir. O pior é que nesse diálogo - tão comum - muitas vezes ambas as almas estão escuras e por trás da máscara outra coisa aparece. Mas a vida é assim, a sociedade em que vivemos é assim. Pareceria estranho dizer:


- Oi, tudo bem com você? *sorrisos*
- Oi, então... na verdade não tô muito bem não, estou me sentindo vazio e sozinho, sei lá. 
- ... humm... nossa. Então... é... como assim, cara? *espanto, misturado com uma acentuada pontada de desespero*
- Sei lá, só não estou legal não. E você?


(se a outra pessoa sentir a necessidade ser sincera, ela provavelmente está - no fundo do seu ser -sentindo a mesma coisa)
- Olha, pra falar a verdade, eu também estou nessa mesma merda aí. 

(ou se a pessoa simplesmente não quiser revelar seus reais sentimentos, ela dirá)
- Ah, que pena cara! Eu tô bem, até! Vê se melhora, hein. A gente se vê por aí! *sorrisos* 
Algo assim.

Por vezes penso que essa máscara é ótima, imagina se fôssemos expor nosso rosto real a todo momento... essa máscara nos impede de explodir, nos impede de simplesmente desabar em qualquer lugar. De certa forma, é o que nos mantém. Mas a Clarice consegue desfigurar essa máscara, transformá-la em algo tão desfeito que cai rapidamente do teu rosto. Ela me mostra isso tudo de uma forma bonita e intensamente dolorida, tudo ao mesmo tempo. Enquanto aprecio tudo que está diante dos meus olhos, um sangue escuro escorre por dentro. Isso é Clarice, essa dor belíssima, essa vontade insana de algo que não se sabe. Esse sentimento profundo e aguçado de estar vivo.

Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa? (...) Se tivesse a tolice de se perguntar "quem sou eu?" cairia estatelada e em cheio no chão. É que "quem sou eu?" provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto." 

Rita Zerbinatti, 26 anos, professora, apaixonada por Ficção Científica, dias chuvosos, séries de TV e café. Quer saber mais?Clique aqui.

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