SEMPRE VIVEMOS NO CASTELO - SHIRLEY JACKSON


Esse não é um livro de terror, embora seja um livro sobre medo e que chega a causar, na boca do estômago, um tipo estranho de receio. Ou melhor, um incômodo. Passei a leitura inteira incomodada, mas incomodada de um jeito bom, incomodada por que a história era tão incrível e tão real que me vi perturbada, angustiada. Sempre vivemos no castelo foi lançado em 1962 escrito pela norte-americana Shirley Jackson, autora que parece ter inspirado Stephen King e Neil Gaiman. 

Finalmente esse livro chegou em nossas mãos! Saiu Companhia das Letras e assim que soube do lançamento fiquei super feliz e estava aguardando com muita ansiedade. A Shirley Jackson é uma autora querida demais por pessoas que admiro portanto, precisava muito ler. E para minha enorme surpresa - eu tinha altas expectativas, mas foram superadas - esse livro entrou para lista de favoritos. Até agora não consigo explicar exatamente o porquê, creio que foi algo no ritmo do livro, em sua construção, nos personagens tão atípicos e perturbados, na atmosfera de suspense, tensão e ao mesmo um clima contraditório e esquisito. Talvez  "esquisito" seja a palavra de mais destaque que vem na minha mente quando penso nesse livro, e eu gosto muito disso. Tenho uma forte tendência a gostar de personagens esquisitos, de histórias esquisitas. 

São tantas coisas que quero comentar sobre essa pequena história que nem sei ao certo se farei sentido com esse texto. Já me parece um amontoado de palavras que só fazem sentido na minha cabeça. Mas vou tentar melhorar: a história nos apresenta alguns personagens da família Blackwood: a Constance, a Merricat e Tio Julian. Logo sabemos que esses três personagens foram os únicos sobreviventes de um envenenamento que aconteceu na família. Todos da família Blackwood morreram, menos eles três, o que faz com que as pessoas que moram naquela cidadezinha tratem eles de forma estranha e cruel, pois não sabem exatamente o que houve naquela família e quem envenenou a galera. 

Engraçado é que isso tem seu destaque no livro mas não é um assusto principal. A história não é apenas sobre o assassinato da família Blackwood. A nossa narradora, a Marricat, a irmã mais nova de Constance, nos faz percerber vários detalhes sinistros sobre o tema ao longo da leitura, mas isso está mais para um background assustador e bizarro, tem muita coisa além do assassinato. Outro detalhe interessante é que a Merricat se torna aquela narradora não confiável, pois vamos percebendo que ela tem algum problema psicológico. Não sei se estou apontando isso da maneira correta, e não quero ser aquela que faz diagnóstico de personagens, mas essa personagem claramente não é normal. E é ela que muitas vezes vai nos deixar com aquela sensação ruim no estômago.

Falando um pouco sobre as personagens: Constance também não é muito normal, depois de todo o rolê do assassinato ela não sai mais de casa. Assim como o Tio Julian, que é um senhor doente, portanto apenas a Merricat dá seus "passeios" pela cidade para fazer compras para a irmã. É nesses passeios que percebemos que os habitantes daquele local odeiam ela e sua família, mas o ódio é recíproco e forte. Em contraste com esse ódio todo, a Merricat sente um amor absurdo pela irmã e sente que precisa protegê-la, às vezes rola um ciúme ou culpa quando algo acontece. Tudo isso torna a história ainda mais marcante. 

Todos os personagens são inteiramente complexos, o que é um ponto muito positivo pois a autora conseguiu explorar e construir tudo tão bem, com tanta complexidade, que é até difícil acreditar que essa história toda acaba em menos de 200 páginas.  A Constance, e especialmenta a Merricat, são absurdamente complexas e incríveis. Estar acompanhando essa história sendo narrada pela Merricat é algo esplêndido e ao mesmo tempo assustador. Ela é a personagem responsável por esse grande incômodo que eu sentia, pois de alguma forma a autora conseguia me fazer sentir o que ela sentia. Se ela estava com raiva de alguém, eu também ficava com essa raiva. E seus pensamentos são muito perigosos, é uma personagem difícil e extremamente interessante. É incrível que ela seja a narradora. 

Sinto que já escrevi muito e ao mesmo tempo, nada. Mesmo assim, creio que é melhor parar por aqui. Apenas te peço para que dê uma chance para esse livro e se deixe levar pela Merricat, pela atmosfera esquisita, pelo suspense. É angustiante, é incômodo mas também é delicioso. 







Rita Zerbinatti, 25 anos, professora, apaixonada por Ficção Científica, dias chuvosos, séries de TV e café. Quer saber mais?Clique aqui.


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