ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO - HARUKI MURAKAMI


Sempre que leio algum livro do Murakami me sinto bem. É uma espaço confortável - sempre diferente, porém confortável - que me faz sentir o coração aquecido, sabe? De alguma forma, suas histórias me completam, acrescentam algo dentro de mim que não sei explicar. E eis que me deparo com esse livro de não-ficção, onde o Murakami nos conta sobre ser escritor. Já sabia que iria gostar, sabia que seria algo parecido com magia. 

Nessa obra ele comenta sobre vários assuntos, mas me chamou atenção, especialmente, seus comentários sobre ser alvo de críticos literários que não cansam de frisar que ele não é escritor, que o que ele produz não é literatura. Isso realmente me deixou pensando bastante, como podemos dizer que fulano não é escritor e que ele não faz literatura? Principalmente se esse fulano tem obras publicadas em diversos idiomas e é conhecido no mundo inteiro. Já vi alguns "críticos literários", inclusive nesse Youtube de meu deus, falando que Murakami não é escritor e o que ele escreve nem deveria ser considerado literatura. Acho incrível termos opiniões diferentes, no entanto, não acredito que exista uma pessoa boa o bastante para apontar e dizer: isso é literatura, isso não é.

 Ao meu ver, se uma pessoa senta a bunda numa cadeira para escrever uma história e agrada alguém com sua história, ele é um escritor. Existem diversos tipos de escritores, mas todos são, em essência, escritores. Que coisa necessária é essa para ser "um escritor de verdade" diante dos olhos de tais críticos? Não entendo isso muito bem, Para mim, e para milhares de outras pessoas, as obras do Murakami abrem um vasto e intenso diálogo, e isso me basta. Se eu criei um vínculo com a história, se pensei sobre algum assunto que a obra trata, se me emocionei, isso me basta. Não vejo a necessidade de ter conhecimento técnico para me emocionar com uma história. Conversei sobre isso certa vez com uma pessoa maravilhosa e iluminada, a Isabella Tramontina (vá ver os vídeos dela agorinha!) e jamais vou me esquecer de um comentário que ela fez: vale mil vezes mais uma lágrima de emoção do leitor do que uma análise crítica da obra. Eu concordo com ela do fundo do coração. 

Um dia desses estava ouvindo um podcast sobre Teoria Literária e os apresentadores começaram a criticar ferozmente os blogueiros e booktubers que não tinham formação literária. Eu mesma não tenho formação literária e isso não me impede de escrever ou falar sobre os livros que gosto de ler. Eu vejo a literatura como uma arte que está disponível para todos, não é necessário nenhum requisito especial - além de saber ler - para aproveitar e se deliciar com uma história. Acho pesado alguém se achar no direito de falar que "se você não tem conhecimento técnico sobre literatura, não pode produzir conteúdo sobre ela para outras pessoas". Claro que existem produtores de conteúdos que aparentemente a última coisa com a qual se importam é o conteúdo, no entanto, isso não é exclusivo do mundo literário. Sempre existiu e sempre vai existir bons produtores de conteúdos e aqueles que só querem audiência. 

O que acho errado e cansativo é essa coisa de que alguns dessa área parecem estar num pedestal, como se seu conhecimento fosse uma espécie de ouro de um outro planeta. Eu estudei Artes Visuais, tivemos aula de cinema, fotografia, artes plásticas, história da arte, entre outras, e todos os profissionais que me deram aula me ensinaram a olhar para a arte com outros olhos, mas sempre de uma forma humilde. Me parece um comportamento feio e pouco respeitoso dizer que fulano não é escritor, ou no meu caso, como sou profissional da arte poderia dizer: fulano não é um pintor de verdade. Não faz menor sentido, não é mesmo?

Enfim, estou sentindo que deveria ter  feito dois textos para esse livro. Espero que esteja comigo ainda. Romancista Como Vocação traz muitas reflexões e questionamentos sobre diversos temas, concordei com o autor em alguns e discordei de sua opinião em outros. Isso fez com que parecesse que eu estava tendo uma conversa com o Murakami, tomando um café com ele. Foi uma delícia essa leitura. Eu valorizo muito os livros de não-ficção desse autor (tem esse e um outro chamado Do que eu falo quando falo de corrida), pois me despertam um sentimento de mudança, me fazem querer trabalhar em meus projetos, estudar mais, me empenhar. Só por isso a experiência de leitura já é muito válida, adoro quando um livro desperta uma força assim. 

Entre os temas abordados pelo autor, gostaria de destacar  mais alguns que me chamaram atenção: ele comenta sobre a situação da educação no Japão e infelizmente, é possível traçar um paralelo com esse tema pois ele aponta que a educação no seu país é voltada para o conteúdo, sem se importar verdadeiramente com o aprendizado do aluno. Ele apenas precisa decorar tais matérias para passar num vestibular e acaba aprendendo pouca coisa efetivamente. Aqui no Brasil não é muito diferente não, já trabalhei numa ótima escola particular - e atualmente estou em um escola estadual - e só se cobra conteúdos decorados para atingir tais notas, tais objetivos. E com isso, parece que estamos formando máquinas, alunos que não sabem pensar e tem imensa dificuldade para criar. Enfim, esse é bom assunto para um outro dia.  

Mais um tema interessante que ele aborda nesse livro é a rotina. Sim, Murakami escreve sobre sua rotina e é encantador. Queria ter metade da dedicação e força de vontade que ele tem, minha vida mudaria muito, tenho certeza. Uma coisa interessante que ele escreve e que me deixou pensando bastante, apesar de não ser nenhuma novidade, é o fato de ele se exercitar diariamente, sua mente é capaz de trabalhar bem, com disposição e criatividade, pois seu corpo está bem. Mente e corpo em harmonia total. Coisa que eu não tenho, pois sou a maior sedentária da face da Terra. 

Depois dessa leitura comecei até a fazer mais exercícios físicos, comecei a dedicar mais tempo para as leituras e minha visão sobre rotina mudou um pouco. Comecei a encará-la de uma forma mais positiva, e essa questão da positividade também é muito importante. Mas ok, para finalizar esse post que já está enorme, gostaria de dizer que, mais uma vez, fiquei com sensação de que o Murakami é muito querido, calmo, introspectivo, cheio de energia para viver cada dia da melhor forma e com uma criatividade invejável. Acredito que ele me cativa tanto por que parece uma pessoa ordinária, comum, extremamente criativa, mas comum. Ele escreve pois sente essa necessidade, é aquela coisa inexplicável. Todo mundo tem algo assim, pelo qual vale a pena viver. Ele ama escrever histórias, criar personagens, assim como eu amo ler e entrar no mundo desses personagens. 

Já imaginou encontrar com um dos seus escritores favoritos? Às vezes penso que se encontrasse algum escritor que admiro muito ficaria super nervosa e mal conseguiria falar. No entanto, se um dia encontrasse o Murakami - difícil isso, mas não custa nada sonhar - eu iria abrir um sorriso enorme e abracá-lo como se fosse um velho amigo. Me senti mais próxima dele com esse livro, me deixou com essa impressão de que não somos tão diferentes afinal.



Rita Zerbinatti25 anos, criadora do blog e canal Cheirando Livros, professora, apaixonada por Ficção Científica, dias chuvosos, séries de TV e café. Quer saber mais?Clique aqui








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