O CONTO DA AIA - MARGARET ATWOOD


Preciso dizer que agora sou fã da Margaret Atwood e que vocês me verão comprando e lendo - feito uma doida - tudo que essa mulher já escreveu. Ela é incrível. Absolutamente incrível. Dito isso, acredito que já deu pra perceber que gostei desse livro, não é? No entanto, não será tarefa fácil escrever sobre ele, mas será necessário. Quando digo que não será fácil é por que essa história e a forma como ela foi contada mexeu comigo de um jeito absurdo, creio que deva acontecer isso com todas as pessoas que pegaram esse livro pra ler. Seria impossível realizar uma leitura dessa e sair ileso.

O Conto da Aia foi publicado em 1985 e já chegou fazendo sucesso, rendendo à autora - diva, maravilhosa - prêmios importantes e arrebatando os leitores. Atualmente ganhou uma adaptação para televisão, confesso que ainda não assisti aos episódios dessa série - falta-me um pouco de estômago pra isso agora - mas pelo que já vi por aí parece incrível e muito bem produzida. E sim, importante dizer também que o livro já havia sido adaptado antes para cinema e rádio. Ou seja, esse negócio é babado, você vai precisar ler! 

Mas do que se trata esse livro tão falado, premiado e adaptado? Se prepara: em um futuro assustadoramente próximo, bem próximo mesmo, aconteceu um golpe ao governo dos Estados Unidos - que no livro é a República de Giliad - e essa nova forma de governo, absolutamente religiosa e conservadora, retira todos os direitos das mulheres e divide a sociedade inteira em castas. As mulheres perdem o direito de trabalhar, de ter propriedades, dinheiro ou qualquer coisa. Perdem o direito de desejar. Perdem até mesmo o direito de escolher suas roupas, pois agora seus vestidos - que cobrem absolutamente o corpo todo - ditam a casta à qual pertencem. Com isso, as mulheres de vermelho são as Aias e as mulheres de azul são as Esposas, e por aí vai. 

Não existem muitas castas para mulheres já que suas funções não são muitas, mas vamos acompanhar, em uma narrativa dolorida e emocionante, a vida de uma Aia. E o que são essas Aias, afinal? São as mulheres designadas a oferecer um serviço muito simples às famílias: engravidar, parir. Elas vivem ali nas casas das pessoas ricas e privilegiadas para terem relações sexuais com os maridos, ou melhor, Comandantes, e engravidar. Mas detalhe, esse ato sexual é apenas um ato sexual e nada mais que isso, não há a menor relação entre os dois, portanto, a Esposa deve assistir. Obviamente isso acaba criando uma situação de ódio entre as mulheres. Mas isso é um só um pouquinho, só a pontinha do iceberg que a autora apresenta nessa história. 

Acompanhando nossa Aia, vamos observando e entendendo como funciona esse novo regime e claro, vamos nos indignando, nos assustando. A Aia vai narrar a história de uma forma não linear, é como se estivéssemos dentro de sua cabeça, observando seus pensamentos e lembranças, com isso, ao mesmo tempo que ela está contando algo que está acontecendo agora, intercala também com uma memória da vida no passado, quando o mundo não era tão errado assim. Ela sofre muito com essas lembranças e em um momento - muito marcante - até consola-se pensando que as próximas Aias, as mais novas que não terão vivido a liberdade, não sofrerão tanto assim. 

É uma leitura dolorida, desesperançosa e uma grande crítica à nossa sociedade. Eu não tive esperanças no futuro enquanto lia isso, é uma leitura bem pesada, fiquei bem pra baixo e com um humor de querer sair batendo em todo mundo. Como disse, foi um livro que mexeu muito comigo, foi aquele tipo de leitura que não sai da sua cabeça, que fica ali incomodando. Remoendo. Cutucando. E o mais assustador foi perceber que na verdade, todo esse futuro distópico pode realmente acontecer. Sempre que leio uma distopia fico com essa sensação, mas nesse livro foi ainda mais forte por que, querendo ou não, as mulheres atualmente já sofrem muito, já passam por situações horríveis e para esse cenário já tão tenebroso piorar, não é preciso muito. 

Também tenho alguns comentários para fazer sobre a narrativa e minha experiência com ela. Comentei ali em cima que é uma leitura dolorida, não só por conta da história horrível que nos é apresentada mas também por conta da narrativa. Muitas vezes parecia um parto. Era difícil acompanhar, não é uma leitura gostosa, que flui bem e tal. E claro, isso faz todo sentido quando pensamos na história do livro, nas personagens e em todas as situações, por isso, a forma como a autora escolheu contar essa história também foi muito marcante pra mim, mesmo sendo algo meio maçante e arrastado. Parece que tinha que ser assim, faz sentido ser assim. Encarar esse livro é um desafio em todos os sentidos.

Enfim, sinto que escrevi tão pouco, parece que ainda não disse nem metade do que queria, mas já passei um bom tempo sentada aqui com o coração apertado enquanto escrevo.  Espero que você aí do outro lado da tela se interesse por esse livro, talvez seja tão chocante e dolorido pra você quanto foi pra mim, talvez seja ainda mais dolorido. Mas é uma leitura necessária, importante, que te fará refletir muito. Você precisa ler O Conto da Aia.




Rita Zerbinatti25 anos, criadora do blog e canal Cheirando Livros, professora, apaixonada por Ficção Científica, dias chuvosos, séries de TV e café. Quer saber mais?Clique aqui.

Um comentário:

Tecnologia do Blogger.