FLUAM MINHAS LÁGRIMAS, DISSE O POLICIAL - PHILLIP K. DICK


Que voadora no peito que eu tomei. Foi grave, ainda estou me recuperando, mas tá tudo bem agora. Seguimos em frente, tem livro que é assim mesmo.

O Phillip K. Dick (PKD) sempre me deixa meio zonza, meio perdida, meio sem jeito. Espera aí, será que eu entendi direito? Essa foi a minha vibe ao chegar no final da leitura, confesso que fiquei dando uma de Nazaré fazendo os cálculos mentalmente. Mas disse antes que levei uma voadora no peito pois encontrei nesse livro diálogos tão intensos, filosóficos e profundos, que eles ainda não saíram daqui de dentro e acredito que não sairão tão cedo. Foi forte e veio no momento certo. 

Nessa história somos apresentados a um personagem nada carismático e bastante irritante, o Jason Taverner, que vive em um futuro distópico. Nessa sociedade super controladora, existe um tipo de ditadura militar e os policiais comandam e parecem pegar pesado com tudo. Além disso, as pessoas parecem viver de televisão - alguma semelhança? - e é aí que entra nosso personagem: ele é uma grande celebridade, o mundo inteiro conhece ele e no entanto, um dia ele acorda e percebe que mais se ninguém se lembra dele. Ninguém sabe quem ele é.

Jason se vê nessa situação bastante perturbadora e inusitada, e além de perceber que as pessoas não lembram dele, também não há registro algum, é como se ele nunca tivesse nascido. Ok, isso é muito perturbador e bizarro. E as bizarrices não param de acontecer. O personagem percebe que não pode ficar sem documentos ou então a polícia mandaria ele para campos de trabalho forçado e claro, ele poderia morrer nessa brincadeira toda. Com isso, ele precisa encontrar alguém para falsificar documentos pra ele e só então ele pode tentar começar a entender o que está acontecendo.

WHAT THE FUCK IS GOING ON

O restante do livro é o Jason tentando entender porque sua vida mudou, porque as pessoas não o reconhecem, o que pode ter acontecido... E também temos os policiais investigando essa pessoa estranha que surgiu sem registro algum, adicionando uma perseguição totalmente weird na história. É muito interessante acompanhar tudo isso, no entanto, me perdi várias vezes. 

Vi um comentário de alguém dizendo que se você está lendo um livro do PKD você já espera se perder aqui e ali, e isso é um pouco verdade, o autor tem um jeito bem diferente e talvez um pouco dessincronizado de contar uma história. Ao meu ver, o PKD não estava muito preocupado com a estrutura da narrativa, acredito que ele sentia uma urgência de escrever, de tirar aquela coisa pra fora. Por conta disso, me parece que o livro constitui de um ritmo peculiar, descompassado. 

LADO BOM E LADO RUIM

Claro que todos vocês já sabem que eu amo Ficção Científica e também amo o PKD, mas não importa o quanto gostamos de determinado autor ou gênero, é sempre importante entender e reconhecer quando não gostamos muito de algo que o autor escreveu. Eu acho o PKD genial e eu gostei de ler esse livro - principalmente pelos diálogos profundos e que me fizeram pensar muito - mas não me encontrei no meio caminho, me senti distanciada da história quase o tempo todo. Salve os momentos filosóficos que, na minha opinião, valeram o livo inteiro.

Eu não estava com altas expectativas, fui ler até que tranquila - mas no fundo, por ser PKD sempre rola uma expectativa, vai, confesso - e também confesso que dói um pouco o coração por eu não ter me envolvido tanto na história, por não ter sentido algo maior. Sem dúvidas senti muitas coisas com várias passagens do livro, mas não rolou aquele afeto, aquele carinho. Aquela coisa louca de: preciso reler isso, é INCRÍVEL! Sabe?

No entanto, sempre fica algo maior e podemos pensar nesse livro por um outro viés. De repente, o lance da história talvez não seja exatamente o Jason ter acordado diferente e ficar tentando entender toda a parada louca que aconteceu. Talvez o lance todo esteja no fato de nos alertar para nossas atitudes, para nossa própria vida e identidade. O que eu amo nos livros desse autor é que ele sempre me faz refletir sobre a realidade, e aqui isso se repete também de forma intensa. Fiquei pensando sobre realidade, sobre solidão, sobre a agilidade dos nossos dias e as futilidades que os preenchem, o consumo... Enfim, tanta coisa. 

E mesmo não me sentindo tão conectada, tão envolvida com a história posso dizer que gostei e que valeu a pena. Sempre vale a pena quando o livro te faz pensar e desperta sentimentos intensos de dentro de você, portanto, quer se aventurar numa viagem muito louca? Se joga no Fluam minhas lágrimas, disse o policial.










Rita Zerbinatti25 anos, criadora do blog e canal Cheirando Livros, professora, apaixonada por Ficção Científica, dias chuvosos, séries de TV e café. Quer saber mais?Clique aqui.

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