GOLEM E O GÊNIO - HELENE WECKER


No fundo eu sabia que estava com as expectativas altas demais, e quando isso acontece sabemos que a queda pode ser enorme. E vai doer. Nossa consciência grita e implora: crie unicórnios mas não crie expectativa -  alguém disse. Tal é o medo de dar com a cara no chão depois de uma queda em câmera lenta de uma altura absurda. Já me aconteceu. Doeu. Felizmente esse não foi o caso com Golem e Gênio. Na verdade, com essa fantasia da Helene Wecker aconteceu o contrário: minhas expectativas, que já eram altíssimas, foram superadas. O amor bateu à minha porta e eu deixei entrar, agora ele já tomou conta de mim. 

Está bem, vamos começar com aquele papo de é-difícil-escrever-sobre-um-livro-que-amei-tanto. De fato, é difícil escrever sobre um livro que amei tanto, mas ei de tentar! E já vou logo de cara lhes dizer que fazia muito tempo que não me sentia órfã de um livro. Sabe aquela sensação de "o livro acabou, minha vida acabou"? Mais ou menos isso. Na verdade, é bem isso mesmo. Fiquei chateada, não queria que o livro chegasse no final. Essa experiência de leitura foi uma das coisas mais deliciosas que tive nos últimos anos. 

Golem e o Gênio vai nos trazer a história de duas criaturas não humanas, uma Golem e um Djim, sendo que a Golem é uma criatura feita de barro, criada através de certos poderes mágicos, e o Djim é um ser de fogo, capaz de mudar de forma e alguns eram capazes até de realizar desejos humanos. A Golem pertence a cultura judaica e o Djim, à mitologia árabe, com isso, percebemos que a autora mistura e brinca um pouco com esses elementos pertencentes à culturas distintas. Posso falar? Achei isso genial! Até por que a forma que ela encontrou de fazer isso é realmente de aplaudir, de pé. 

Mas calma aí, só vou contar mais um pouquinho da história: a Golem foi criada, na Alemanha, por um homem sinistro para servir de esposa à outro homem sinistro, de repente se vê sozinha e perdida em um bairro de imigrantes na NY do final do século XIX. E o Djim, que vivia no deserto sírio, foi preso em uma garrafa e de repente se vê "livre" em um bairro de imigrantes na NY do  final do século XIX. E sim, como você já deve estar imaginando, a história dos dois vão se cruzar em algum momento.

Ah, que emoção só de lembrar! A forma como esses personagens foram construídos é sensacional, a delicadeza, habilidade e poder dessa narrativa é algo notório e inesquecível. Sem contar que a autora dá um jeitinho - todo especial - de abordar inúmeras questões pertinentes, como por exemplo: aceitação de si mesmo e do outro, religião, diferenças culturais e  muitas outras. Mas na minha humilde opinião, o que mais me chamou atenção foi o despertar para questões como "até onde somos humanos?", "o que nos define como humanos?", já que temos dois personagens não humanos e que se mostram, muitas vezes, mais humanos que nós. Isso nos leva a pensar nas nossas atitudes imediatamente, e eu sempre gosto desse tipo de tema. 

Outra coisa incrível é perceber o quanto os nossos personagens, Golem e Djim, são diferentes porém, iguais em vários aspectos. O que nos faz olhar, novamente, para nós mesmos, para nossa sociedade construída por pessoas diferentes e ao mesmo tempo, iguais. E de certa forma, toda essa reflexão nos comove pois nos faz enxergar, nem que seja um pouquinho, da magia que cada um tem dentro de si. "Somos todos seres mágicos".

Creio que já deu pra entender que esse livro é mais que recomendado. Uma história bem construída, humana e extraordinária, com capítulos intercalados - o que te faz devorar ainda mais esse livro - e com personagens absolutamente geniais! Faça um favor a si mesmo e vá ler Golem e o Gênio. :)








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