VOZES DE TCHERNÓBIL - SVETLANA ALEKSIÉVITCH


A partir do momento que você começar a leitura desse livro, algo vai mudar. Claro que sempre (ou quase sempre) que lemos um livro concluímos a leitura com algo a mais, algo diferente. Conseguimos aprender e refletir a partir das nossas leituras. No entanto, com esse livro eu senti algo diferente e hoje quero explicar por que. 

Svetlana Aleksiévitch, nascida na Ucrânia, viveu o desastre nuclear de Tchernóbil. A partir dessa experiência dolorosa, ela criou o "Vozes de Tchernóbil" que é um compilado de relatos das pessoas que estavam lá, que viveram e vivem essa tragédia. Um tema difícil mas extremamente necessário, é preciso falar sobre Tchernóbil. Svetlana organizou esses relatos de uma forma genial, com títulos inesquecíveis que despertavam a minha atenção e me faziam devorar o livro. 

Além disso, é importante ressaltar que o livro é divido em  três partes: coro dos soldados, coro do povo e coro das crianças. Eu particularmente não consigo dizer qual dessas partes mais me impressionou. Todos os relatos são intensos, emocionantes e importantes. Inesquecíveis. Já começamos a leitura lendo  "uma solitária voz humana" e terminamos a leitura com outro relato com o mesmo título, ambos impressionantes. Ainda mais impressionante é a forma como a Svetlana vai nos guiando por esses relatos. 

O DESASTRE


Como já disse, os relatos foram marcantes, o tamanho do sofrimento e da angústia é imenso. Cada parágrafo, cada palavra tem um peso enorme. E os relatos vão trazer um pouco sobre aquela noite de abril de 1986. Como sabemos houve uma explosão em um dos reatores de energia nuclear em Tchernóbil, na Ucrânia. 

No entanto, o que sabíamos também (ou ao menos, o que eu sabia) era que evacuaram a área logo em cima, e o governo imediatamente tomou as medidas de segurança. Ah,se tivesse sido assim! No entanto, com essa leitura, percebi que o governo pouco se importou com medidas de segurança, pouco se importou com as pessoas que viviam lá. Nem preciso dizer que  muitos perderam a vida de forma horrível. Entrar em contato com um alto nível de radiação não é legal, minha gente. 

A revolta que vai se instalando por dentro ao ler os relatos, ao acompanhar o sofrimento das pessoas - que vivem as consequências até hoje - e perceber  o descaso do governo, que mentiu para a população. Porém, em momento algum eu senti que a autora estava manipulando aqueles relatos para nos mostrar um culpado, há relatos que se contradizem, contam coisas diferentes. Afinal, cada um ali tinha vivido uma experiência diferente diante da catástrofe, cada um reagiu de um jeito e cada um acredita no que quiser. 

E na verdade não há necessidade de procurar por culpados nessa altura do campeonato e esse não é o objetivo das narrativas, a dor que ficou é maior do que isso. É necessário se preocupar com o futuro, é necessário falar sobre Tchernóbil. Devo confessar que esperava uma leitura que fosse me fazer chorar, me fazer mal, sabe? Não aconteceu. Entendo a importância de cada relato, vi aquele sofrimento todo porém, não me atingiu tão fortemente como achei que iria. Talvez estou num momento bom e tranquilo, mas confesso que estava preparada até para uma possível ressaca literária depois dessa leitura. Não foi pra tanto. 

Uma das partes que mais me emocionou - e me revoltou - foi o Coro das Crianças. Ver o quanto as crianças de lá são diferentes, brincam, agem e falam sobre morte, sobre a desgraça da vida delas, isso é chocante. Muito triste perceber o quanto o acidente ainda atinge as crianças, todas as gerações estão castigadas, amaldiçoadas. Nos faz pensar o quanto a vida é injusta, cruel e frágil. 

Esse é um livro cru, intenso e magnífico. Uma leitura necessária, com uma narrativa hipnotizante, forte e deliciosa, simplesmente vale a pena. Se você não está acostumado a ler não ficção - assim com eu - e tem interesse nesse livro, vai na fé, é uma leitura incrível, fácil e rápida, porém, intensa, pesada. E se você já leu, me conta o que achou! 





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