EU ESTOU VIVO E VOCÊS ESTÃO MORTOS - EMMANUEL CARRÈRE


Eu não sou muito chegada em biografias. Sempre ouvi dizer "ah, você não gosta por que ainda não encontrou a biografia certa de uma pessoa que você admira muito". Em toda minha vida lembro de ter lido apenas uma biogafria: a do Kurt Cobain, pois sim, tive aquela fase adolescente rebelde que amava Nirvana com todas as forças. Deu no que deu. No entanto, essa biografia do Kurt foi tão importante pra mim naquela época que até hoje continua sendo marcante. Sinto que essa biografia romanceada do Phillip K. Dick surtirá o mesmo efeito daqui um tempo. 

Na verdade, o efeito já se deu. Já me senti completamente imersa, perdida e intrigada com esse livro. O término dessa leitura me deixou sem chão, triste e paranóica. Não há dúvidas de que me lembrarei disso daqui uns anos. Na verdade, a vontade que tenho é sentar ali e reler tudo, me deliciar e me assustar novamente com esse livro incrível. Mas ok, acho que já deu pra entender o quanto essa leitura foi legal e especial pra mim. 

Quero começar dizendo que o Phillip K. Dick, autor indispensável para leitores de Ficção Científica, sempre me chamou atenção por sua excêntricidade e quando soube que ele teria uma biografia romanceada escrita pelo Emmanuel Carrère, surtei! A vontade de ler tudo do Carrère e do Dick só aumentou, virou objetivo de vida. E nessa obra o Carrère nos apresenta um Phillip K. Dick tão próximo de nós mesmos que em vários momentos, me identifiquei com ele. Sofri com ele e meu lado paranóico e questionador se aflorou.

Me senti na cabeça do Phil, me aproximei dele e de seus problemas de uma forma como se fosse eu mesma vivendo aquilo. Admiro o Carrère por sua capacidade de ambientação e descrição sem contar as diversas vezes que ele se dirige diretamente à nós, leitores, como se isso fosse uma longa e deliciosa conversa. Há desafios que ele nos propõem entre um capítulo e outro. Achei delicioso, divertido, mesmo em um contexto um tanto quanto perturbador. Com isso, não percebi que havia sido engolida pelo livro. A atmosfera de leitura, música, exclusão e sonhos malucos na qual o Phil vivia foi irresistível, entrei ali e não queria mais sair. 

Lembrando que se trata de uma biografia romanceada, o que significa que houve partes em que o autor se deu ao luxo de interferir, inventar, sonhar. Confesso que isso me trouxe uma sensação boa, e essa dúvida que Emmanuel nos apresenta de querer saber se aquilo que ele conta aconteceu mesmo ou não, combina perfeitamente com todo o universo do Phil.

Essa questão da realidade é justamente uma das coisas que mais me atraí nos livros do Phillip K. Dick. Enquanto lia "Eu estou vivo e vocês estão mortos" senti na pele um pouco dessa dúvida que assolava nosso querido autor: isso que estou vivendo é real? O que é real? Esse tipo de coisa sempre me incomodou e acabei me identificando com as questões do Dick em vários aspectos. 

O que mais me impressionou durante a leitura, foi o fato do Phil ter tido uma irmã gêmea que morreu, e durante toda sua vida ele não parou de se questionar qual dos dois havia de fato morrido. 

"E toda a incerteza que ele sofria e que tinha servido de material para seus livros remontava à questão de saber qual dos dois era a marionete e qual era o ventríloquo. Se o mundo real era aquele onde ele acreditava viver e, feio um médium, evocaba Jane (a irmã) sob diversos disfarces divinos ou diabólicos, ou se era somente aquela tumba, aquele buraco negro, aquela escuridão eterna onde Jane vivia e imaginava seu irmão sobrevivente. Ele nada mais era do que o ator principal do sonho de uma morta. Ou então era ele quem estava morto, não Jane." 

Percebe o quanto isso é profundo, complexo, perturbador e escrito de forma incrível? O livro todo tem essa vibe de te causar sentimentos dos mais profundos e perturbadores. Não dá pra sair ileso desse livro, assim como não dá pra sair ileso dos livros escritos pelo Phillip K. Dick.







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