VENTO DA LUA - ANTONIO MUÑOZ MOLINA

Nada como um bom título e uma boa capa. Comprei esse livro no escuro, não fazia a menor ideia do que poderia se tratar. E decidi que estava na hora de ler pois Antonio é um importante autor espanhol premiado, e até onde me recordo, ainda não havia lido nada de autores espanhóis. E para a minha surpresa se trata de um romance de formação único e impressionante, que entrou para a lista de favoritos do ano. 

Em Vento da Lua temos uma narrativa poética, simples e tranquila, mas que nos deixa com uma certa nostalgia e melancolia. A história é narrada por um adolescente que, perdido em seus devaneios, nos conta sobre sua vida. Esse adolescente (é um personagem que não tem nome) está assustado com as mudanças em seu corpo e como de repente todos passaram a olhá-lo de forma diferente. O que estava acontecendo? Ele estava crescendo, já não era mais uma criança. 

E como todo adolescente, ele tem uma paixão: leitura. Ele é um verdadeiro devorador de livros, e adora ler Ficção Científica e Fantasia, admira autores como H. G. Wells e Julio Verne. Ele tem também uma obssessão: Apollo 11. A história toda se passa na Espanha, em Mágina, uma cidadezinha perdida do interior e é de lá que o adolescente acompanha pelo rádio e pela TV as notícias da missão Apollo 11, em 1969. Em seus devaneios ele se imagina na nave, admirando a escuridão nunca vista antes, observando o planeta Terra de cima. Essas passagens são incríveis, ganharam meu coração. 

Mas a história não é apenas um adolescente solitário e assustado com a transformação de seu corpo, mas também aborda temas como religião e política. Devo destacar isso pois além de ter muita relevância na história, é abordado de forma leve e apropriada. Nosso personagem se incomoda com o fato de sentir desejos sexuais, pois estuda em um colégio católico e tem família católica também, ele está em conflito com as regras da igreja, com o desejo de seu corpo e com sua mente. Cresceu acreditando em Deus e frequentando a igreja, mas agora já não vê sentido nisso. Ainda assim, tem medo de estar pecando. Além de sua família ser católica e ele já não enxergar sentido na religião, seus parentes também não conseguem entender o porquê que ele lê tanto, estuda tanto e se interessa tanto pela Lua. A família é composta por pessoas simples e hipócritas, trabalhadores do campo. O adolescente simplesmente não se encaixa nessa família, procura fugir de todos o tempo todo. 

Além de tudo isso, também vemos o lado tecnológico crescendo na sociedade, que agora começa a comprar aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos. Sem contar o lado político, pois estamos aqui presenciando a ditadura de Francisco Franco. O adolescente não se prende tanto à isso, sua preocupação maior é com o universo, com a religião e sexualidade. Porém, sua família tem um histórico importante na Guerra Civil Espanhola e nos últimos capítulos ficaremos sabendo o que aconteceu com seus avôs. 

Essa narrativa por vezes parece estar em câmera lenta, outras vezes parece passar rápido demais. Sempre num ritmo poético e melancólico. Um livro sobre perda, sobre família e amadurecimento, com passagens marcantes que provocam muita reflexão, nostalgia e certa tristeza. Ele precisa entrar para sua lista de desejos. Leitura incrível. 

Um comentário:

  1. Rita, não lembro se já te indiquei A ilha de Bowen. Para quem curte ficção científica é o máximo do máximo!! O cara escreve muito bem! Foi um dos meus favoritos do ano passado (e da vida também!).
    Gostei da resenha. Eu acho legal quando o autor consegue colocar o ponto de vista de uma criança ou adolescente sem parecer forçado, sabe?!
    Quando li O menino do pijama listrado, gostei pra caramba. Passou um tempo e meu professor fez meio que uma crítica, que ele não conseguiu sentir a criança narrando, mas um adulto narrando de forma infantil rsrs Achei interessante, e eu quero reler algum dia pra ver se eu sinto isso também.
    Beijãão!

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