O Incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação - Haruki Murakami

13:37 Rita Zerbinatti 4 Comments


(Ei, espere! Antes de começar a ler clique aqui, coloque no repeat e sinta, apenas sinta.)

Ah, Murakami! Por que é tão difícil escrever sobre uma obra de um autor que gostamos tanto? Sinto que tudo o que tenho a dizer ainda não é o suficiente. Mas chega de blá-blá-blá, vamos logo ao que interessa. Por que o livro novo do Murakami causou estranhamento em seus leitores? Eis a pergunta. Tenho visto muita gente falar: "esse é um livro diferente, não parece o mesmo o Murakami." Será que não mesmo? A questão é que muitas pessoas não gostaram desse livro. Não consigo entender o porquê. 

Haruki Murakami tem certa peculiaridade em suas narrativas, isso não é novidade. Eu consigo reconhecer um texto dele de longe. Ele tem uma voz forte e inesquecível dentro da narrativa. Por vezes ele exibe elementos fantásticos, gosta de te deixar na dúvida entre a realidade e o sonho. São momentos incríveis na leitura, confesso, mas não vejo um Murakami tão diferente nesse livro novo, sinceramente. Encontrei alguns elementos fantásticos nesse livro, a linha tênue entre sonho e realidade estão presentes, contudo, é apenas um livro sobre a jornada de um homem dentro dele mesmo. Vou explicar melhor.


Tsukuru Tasaki é um cara comum. Não tem nada de especial, absolutamente nada. Não tinha as melhores notas, não era particularmente bom em nada. No entanto, por algum motivo, ele fazia parte de um grupo de amigos no Ensino Médio. Nesse grupo havia um total de 5 pessoas, três meninos e duas meninas, e cada um deles, exceto Tsukuru, carregava no sobrenome o nome de uma cor. Bela coincidência, mas Tsukuru sempre se sentiu excluído por não ter uma cor no sobrenome. Ele era o Incolor. Mais uma vez, Tskuru não se destacava. Quando terminaram o Ensino Médio, Tsukuru mudou-se para Tóquio e seus amigos queridos continuaram na pequena cidade de Nagoia. Entretanto, seus amigos resolveram cortar amizade com Tsukuru, não queriam vê-lo nem forrado de ouro. Tsukuru não questionou a decisão do grupo, acabou aceitando essa cruel realidade. Poxa, esses eram os únicos amigos que Tsukuru tivera na vida. 

A premissa parece boba, não é? Pois parece sim, mas não é. Simplesmente um cara que foi forçado a perder os únicos amigos que conquistara e que passa o resto da vida sofrendo por conta disso. Confesso que essa história não me empolgou nem um pouco, mas como o Murakami é um mestre absoluto (haha!) ele consegue transformar essa pequena fatalidade da vida de Tsukuru em arte. Gosto de comparar esse livro com o filme Melancolia do Lars Von Trier, é claro que as histórias são diferentes, mas existe algo em comum nos personagens. Ambos são pessoas iluminadas e apagadas ao mesmo tempo. No caso de Tsukuru, um homem comum, foi apagado por ter sido negado, por ter sofrido calado por tantos anos. E ao mesmo tempo, ele é iluminado pois nunca de fato desistiu da vida, no fundo sempre soube havia esperança. Assim como a personagem Justine, em Melancolia. Além disso, na minha opinião, o livro inteiro é uma melancolia, algo delicado, cercado por uma música levemente tocada no piano que te faz sofrer mas você não percebe. Aliás, essa música faz parte do livro tanto quanto o próprio Tsukuru.

E após 16 anos de ter sido excluído do grupo, Tsukuru finalmente resolve ir questionar seus ex-amigos. Hey, lembra de mim? Por que me excluíram do grupo há 16 anos atrás? E com isso ele faz sua busca por respostas. Mas ele não descobre apenas o porquê da exclusão, ele descobre muitas coisas sobre ele mesmo. Amadurece, evolui. É um personagem rico em sentimentos, em percepções. Um cara comum, de fato. Só mais um cara que entra em um estação de trem, senta, e observa o movimento incessante de pessoas indo e vindo. 

A atmosfera dessa narrativa é fria. Em parte por causa dos pensamentos melancólicos do personagem, em parte pela calma música clássica que é tão belamente descrita que pude ouvi-la na minha imaginação diversas vezes. Em parte por conta do clima corriqueiro e cinza de Tóquio. Na boa, é uma narrativa muito bonita, muito bem escrita. O real significado não se encontra na resposta dos amigos de Tsukuru, mas sim na essência do personagem. Penso que nunca conheci nenhum outro personagem tão sincero e tão humano, simples, real. Todos nós temos nossas feridas, nossos momentos ruins, momentos incríveis, dúvidas, decepções, tudo isso e muito mais. Assim como Tsukuru. E apesar das bofetadas da vida, ele segue em frente. Assim como nós.

Mais informações:
Titulo: O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação
Autor: Haruki Murakami
Editora: Alfaguara
Páginas:328
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4 comentários:

  1. Tinha uma ideia diferente deste livro.acabei de lê-lo e gostei mais do que eu imaginava que iria gostar!

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  2. Olá! Gostei demais do livro(meu primeiro falando emMurakami!) . Por favor, gostaria da sua visão, interpretação sobre o personagem Haida. Obrigada!

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  3. Acabei de ler o livro, achei a narrativa maravilhosa e todo aquele clima de incertezas, você de fato entra na cabeça do personagem e fica lá sofrendo junto com ele. Mas algo me deixou perplexo: passei a tarde toda lendo a metade final, simplesmente não conseguia parar. Acontece que cada vez que eu percebia que o livro estava acabando, mais ficava tenso em relação ao desfecho. E tal qual, assim que percebi o fim, parecia que eu havia parado abruptamente, e à minha frente eu via um precipício. Já imaginava a trajetória kafkiana do personagem, mas xinguei até a terceira geração do autor por não dar um final mais claro. Vários pontos ficaram no ar e isso realmente enraivece! Decidi pesquisar outras resenhas só para ver se compartilhavam da mesma frustração que senti, mas agora, passada algumas horas, estou quase a perdoar o autor. Sinto-me órfão, mas não dá para dizer que o livro não é sensacional.

    (Se puder, comente do desfecho e o que sentiu)

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  4. Concordo. É um livro fantástico e com clara assinatura do Murakami. O final nos deixa frustrado inicialmente mas com o passar dos minutos após acabar percebi que é mais uma forma de nós conectarmos com o personagem. A vida não para...só porque o livro acaba... É sempre incertezas virão ao nosso encontro. É ótimo terminar o livro é poder entender relacionar com o título. Fantástico livro que para mim está entre os meus preferidos junto com o nostálgico Norwegian Wood. Boa resenha.

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