Um Conto do Destino - Mark Helprin




Muitos gostaram. Muitos falaram mal. E aqui estou eu com a minha singela opinião. Como muitos já disseram por aí, não dá para escrever um texto pequeno sobre esse livro mas vou tentar. Não quero entrar em detalhes, até porque não é o meu objetivo aqui, mas entre aqueles que gostaram e aqueles que detestaram esse livro, me encaixo perfeitamente na categoria dos que gostaram.  E lhes digo o porquê.


 Sou muito chegada em livros gordinhos. Gosto de narrativas mais extensas e por alguma razão obscura isso me parece empolgante, então logo que vi o livro fiquei um tanto quanto curiosa a respeito de seu conteúdo.  Posso dizer que me surpreendi. Esse livro aborda tantas temáticas quanto é possível para uma história de 700 e poucas páginas. Mas não é esse o fato que me surpreendeu. Muitas pessoas não gostaram da maneira como ele foi escrito, da narrativa, e foi justamente isso que me prendeu durante essa longa jornada. E “bota” longa nisso. A história começa no final do século XVIII passa pelo século XIX e tem seu auge na virada do milênio, chegando aos anos 2000. Uau. Pois é. Mas não se deixe iludir pela capa, nem todo o conteúdo se mantém no romance. Inclusive, o romance é abordado de diversas maneiras, em diversos personagens. A princípio,  conhecemos Athansor, o cavalo mais legal da face da Terra, que logo cruza seu caminho com o do ladrão Peter Lake. Personagem interessante, mas que não me chamou tanta atenção assim, Peter Lake se apaixona acidentalmente pela bela Beverly enquanto tentava roubar sua mansão. A partir de então, a vida de Peter muda completamente pois a jovem também se apaixona por ele. Só que essa bela jovem tem tuberculose e os médicos garantiram que ela viveria por pouco tempo.  E logo no início da história, nossa querida Beverly parte desse mundo.  Gostei muito dela, apesar de passar pouco tempo  viva na história, ela parece estar presente a cada capítulo, pairando sobre os acontecimentos. Enfim, mesmo com a doença ela não se deixava intimidar e tinha dentro de si uma força e fé em coisas incompreensíveis. 
“Beverly tinha tudo aquilo para si; (...) As estrelas abandonadas eram suas durante as muitas e belas horas das noites cintilantes de inverno. Sem desfrutar da atenção que mereciam, ela as aceitava como se fossem amantes. Sentia que olhava para diante, e não para cima, quando observava o universo espaçoso. Sabia os nomes de todas as estrelas mais brilhantes e todas as constelações, e, embora não pudesse vê-las, estava familiarizada com as vastas e ondeantes nebulosas, nas quais um filamento de uma cauda longa e agitada carregava em si mais de cem milhões de mundos. Em um delírio de cometas, sóis e estrelas pulsantes, deixava seus olhos se encherem com a luz sibilante, crepitante e sussurrante da borda da galáxia, um crepúsculo eterno, uma alvorada cinzenta em uma das muitas galerias do firmamento.”
 Sim, a jovem Beverly estava além de seu tempo. E além de tudo.  Seu conhecimento, seus pensamentos e suas atitudes a transformam em uma personagem misteriosa e extremamente poderosa. Além disso, nos ambientes em que ela adentrava as pareciam pareciam mudar, ela causava efeitos inebriantes sobre todos ao seu redor, como se realmente possuísse poderes além de nossa compreensão.  Mas e então? E o romance entre ela e o Peter Lake? Bem, não posso dizer diretamente, mas o amor entre os dois jamais deixou de existir. Essa temática não é abordada de maneira clichê ou chata, mas sim de uma maneira leve, sutil, surpreendente. Vocês devem imaginar que uma história contada ao longo de todos esses anos não  tem foco somente em 2 personagens, né?! Pois bem, com o decorrer do tempo conta-se a história de outras famílias. Admito que todas as história são interessantes, e gostei de muitos personagens que apareceram no meio das páginas. 

Muitas pessoas pensam que é um livro sobre espiritismo, na verdade, existe o tema de vida após a morte mas em nenhum momento se discute religião abertamente. Existe um caminho livre para você interpretar todos esse acontecimentos “espirituais” da maneira que melhor lhe servir, é claro. Entretanto, é um tema abordado com certa magia, como o inverno por exemplo. Nessa história, parece-me que se não fosse pelos invernos não teria acontecido tudo o que aconteceu. O frio, a neve, sua influência sobre as pessoas e sobre a cidade guiam a narrativa em vários momentos. Achei isso fantástico. Além disso, a cidade de Nova Iorque ganha uma aura esplêndida. Os momentos em que as pessoas falam sobre a cidade são mágicos.
“Hardesty percebeu imediatamente que uma força invisível respirava por baixo de todo aquele cinza, que os eventos e milagres da cidade eram simplesmente o efeito dessa força enquanto ela se revirava em seu sono, que  essa força saturava tudo, e que ela havia esculpido a cidade antes mesmo de abrir os olhos. Sentia-a pulsar em tudo que via, e sabia que toda a sua população, embora orgulhosa da sua independência, estava sujeita a uma orquestração completa e intensa, algo que ele jamais poderia ter imaginado.”
 Por vezes, avalio um livro com o seguinte pensamento: vou querer reler no futuro? Se a resposta é não, então, não foi assim tão legal. Se a resposta é sim, o livro, sua história e seus personagens ficam guardados dentro de mim, em uma área VIP. E a minha resposta para esse livro é: sim, quero reler no futuro. Não só porque gostei dos personagens, da narrativa riquíssima, das aventuras, do romance, dos questionamentos que o autor levemente (ou não tão levemente assim) sugeriu. Mas também porque percebi que deixei passar algumas coisas e outras estão além da minha compreensão. Busquei respostas alucinadamente mas entendo que não poderei encontrá-las agora, ou talvez nunca. Mas me consolo pensando que se um dia reler esse livro, posso não encontrar a resposta, mas talvez, mudar a pergunta.
“ Coisas milagrosas certamente já aconteceram. Ouvimos falar sobre exércitos inteiros que foram ressuscitados, ou salvos por um mar que se fecha sobre os inimigos. Pilares de fogo surgem no meio do deserto, trovões e relâmpagos explodem por toda a parte e colinas saltam como se fossem carneiros para proteger os crentes de inimigos ferozes e implacáveis.
- Você realmente acredita que um pilar de fogo surgiu no deserto?
- Não acredito nisso. Acredito que o relato do pilar de fogo foi apenas uma metáfora para algo muito maior e mais poderoso do que um pilar de fogo. E acredito que essa imagem, mesmo com toda a sua beleza, não faz justiça ao que realmente aconteceu.”


Mais informações:
Titulo: Um Conto do Destino
Autor:Mark Helprin
Editora: Novo Conceito
Páginas:720
Ano: 2014
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