O Escriba de Granada - Gilberto Abrão


Sou um pouco suspeita para falar desses  livros que misturam fatos históricos e ficção. E é justamente isso que Gilberto Abrão faz ao longo das páginas com muita firmeza na narrativa, contando-nos uma história que fica cada vez mais envolvente. A começar pela capa que nos apresenta símbolos essenciais para imaginarmos a história.

Começamos o livro com um assunto bastante polêmico. Jorge, filho de uma dona de bordel e de um espanhol chamado Juan Javier, aos sete anos de idade se vê em uma situação nada confortável. Seu pai abandona a família e foge com uma prostituta, por conta disso, sua mãe se vê forçada a colocá-lo em um colégio interno católico, pois ela não queria deixá-lo com as prostitutas enquanto trabalhava. Sem dúvida confiava muito mais em um lugar onde o filho  receberia boa educação católica e não ficaria no bordel sendo tratado sabe-se lá como pelas prostitutas. Acontece que, dentro do internato Jorge se vê em uma situação que mudará para sempre toda a sua vida. Ele é sexualmente assediado por um padre. Os outros meninos que estudam lá percebem, e além de ser assediado ele também sofre bullying.


A partir desse começo bastante conturbado, vamos acompanhando a vida de Jorge, que se transformou em um adulto extremamente problemático pois culpava o pai sumido pelos acontecimentos da sua infância e juventude. Em um determinado momento, ele decide correr atrás desse pai espanhol para tentar sanar esses problemas do passado que perturbam sua mente. Nesse meio-tempo também nos é contado a história de um reino muçulmano, chamado de Granada após ser tomado pelos cristãos. Nessa história, escrita pelo Abul Qacem, o escriba de Granada, acompanhamos as guerras, os conflitos internos e externos dos reinos cristão e muçulmano. Além disso, Abul nos conta seu romance com a sultana Aisha. Essa parte do texto é simplesmente incrível. Eu adorei todos os capítulos que nos é contado essa história.

Achei muito interessante o fato de estarmos cada capítulo em um lugar; ora estamos no mundo do Jorge, acompanhando os acontecimentos de sua vida infeliz, ora somos arremessados para dentro do mundo muçulmano, séculos atrás. Esse vai e vem no tempo nos custa uma boa atividade cognitiva pois é preciso nos adaptarmos a essas abruptas mudanças de cenário, mas com o tempo vamos nos acostumando e gostando do jogo.

Pela diagramação, entendemos que os capítulos sobre o reino muçulmano é um manuscrito (inclusive, foi um detalhe muito atencioso que deixou o livro ainda mais caprichado) e essa história escrita há séculos atrás tem uma importante relação com a história de Jorge. Você passa o livro inteiro imaginando como essas duas histórias totalmente distintas irão se cruzar, e isso, claro, deixa a história ainda mais envolvente. 

Nessas páginas encontram-se muitos momentos de paixão, conflitos, questionamentos sobre a vida, reflexões sobre religião, cultura árabe (que eu adoro), assuntos polêmicos, história do Brasil da década de 60, mistério e emoção. Ufa, quanta coisa. Sim, sem dúvida é bastante coisa, mas tudo isso é inserido em uma narrativa que parece ter o tempo certo. 

No geral, eu achei o livro muito rico culturalmente, pois como já disse, Gilberto escreve sua ficção se entrelaçando com os fatos históricos, os acontecimentos vão nos deixando mais curiosos para descobrir o que acontecerá com  a vida de Jorge e com o reino e as pessoas envolvidas na história, que acabam se tornando queridas. Gostei do desfecho triste e surpreendentemente chocante que Gilberto deu para história. Vale a pena a leitura.


Gilberto Abrão é brasileiro mas viveu um tempo no Líbano, onde estudou a religião muçulmana, o idioma e cultura árabe. Devo admitir que tenho certo fascínio pela cultura árabe e adoro ler histórias com essa temática, então já estou prevendo que irei gostar dos outros livros escritos pelo Gilberto. Além disso, o escritor prestou serviços militares na Faixa de Gaza na década de 1960, já foi colunista do Zero Hora e é um estudioso sobre os conflitos entre palestinos e israelenses. Hoje é proprietário de uma escola de inglês e mora no Rio Grande do Sul.

Por fim, como vocês podem ver, a edição realizada pela editora Companhia Editora Nacional foi extremamente bem feita. Mais uma vez, parabéns a equipe da Companhia, continuem fazendo livros com esse capricho e dedicação, nós leitores agradecemos. E um obrigada especial a querida Cristiane Maruyama, editora da Companhia, que me indicou esse livro. Adorei!

Mais informações:
Titulo: O Escriba de Granada
Autor: Gilberto Abrão
Páginas: 360
Ano: 2013
Compre aqui

4 comentários:

  1. Adoro ler suas resenhas! Eu tenho um enorme carinho por esse livro! Maravilhosamente escrito por um brasileiro! Que bom que gostou!!!! ^^

    ResponderExcluir
  2. Artur Alberto Porciúncula13 de maio de 2014 17:15

    Tive a honra de conhecer o Gilberto pessoalmente. Pessoa de uma simpatia ímpar. Tornamo-nos amigos !

    ResponderExcluir
  3. Sonia Maria de Wallau13 de maio de 2014 18:52

    Querido Gilberto A sutileza com a aqual combinas a História deste povo do Oriente Médio e a ficção, é brilhante
    Parabéns!!!

    ResponderExcluir
  4. Parabéns pela resenha. Este livro é um dos melhores que li em 2014.

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.