O Olho - Vladimir Nabokov

Tenho o hábito de ler bastante. Não consigo passar o dia sem ler ao menos uma página de algum livro, mas claro que existem dias que não consigo ler quase nada. Portanto, constantemente coloco certa expectativa nos livros, principalmente os clássicos. Nunca havia lido nada do Nabokov, mas já tinha noção do seu potencial  por ter escrito Lolita - um marco na literatura mundial. Logo que peguei esse livrinho já senti aquela expectativa. Sempre queremos que o autor nos surpreenda, nos envolva, nos emocione ou no mínimo nos faça refletir. E como já poderia imaginar, Nabokov fez acontecer tudo isso comigo ao ler "O Olho" como num passe de mágica. Uma leitura intensa e com uma narrativa construida de maneira um tanto peculiar, inovadora.

 No romance, o personagem principal, o russo Smurov, passa por uma situação humilhante que o fará terminar com sua própria vida. E então somos apresentados a um universo paralelo. Nabokov nos mostra o genial e confuso mundo dos espelhos, onde o personagem já morto, se enxerga em várias pessoas. É uma busca por ele mesmo, por algo que ainda vive, por sua alma, sua essência, pois seu corpo já não está presente. E a maneira como o escritor narra o momento logo após a morte de Smurov é de arrepiar.

Imagine o seguinte: Smurov já está morto, mas de algum modo sua consciência ainda existe. Ele consegue imaginar situações, e ele gosta disso. Logo, Smurov começa a "reviver" momentos passados como um observador, apenas. Ele tenta entender sobre ele mesmo, busca rastros sobre o que as pessoas pensam sobre ele, chega a parecer obcecado em descobrir o que determinadas pessoas pensam sobre ele. Existe uma narrativa extremamente poética, linda de se ler, e vamos acompanhando essa jornada de Smurov como um espírito, um ser que só vive na mente das pessoas, como lembrança.

Separei aqui duas passagens que me impressionaram muito e que comprovam o estilo genial de narrativa que o Nabokov desenvolveu nesse romance.
 "Afinal de contas, para viver feliz, um homem tem de conhecer vez ou outra alguns momentos de perfeito vazio. No entanto, eu estava sempre exposto, sempre de olhos bem abertos; mesmo no sono eu não cessava de me observar, sem entender nada de minha existência, enlouquecendo com a ideia de não conseguir deixar de ser tão consciente de minha presença, e invejando toda aquela gente simples (...) e naquelas manhãs terríveis, de um azul esmaecido, enquanto meus calcanhares batiam a solidão da cidade, eu imaginava alguém que enlouquece por que começa a perceber claramente o movimento da esfera terrestre."
 "Porque eu agora sabia que depois da morte o pensamento humano, livre do corpo, mantém em movimento em uma esfera em que tudo é interconectado como antes, e tem um relativo grau de senso, e que o tormento de um pecador no outro mundo consiste precisamente em que sua mente tenaz não consiga encontrar sossego até conseguir desvendar as complexas consequências de suas impensadas ações terrestres."
 Esse livro trata do tema da morte e vida após a morte de uma maneira simples mas impressionante, pois coloca-se que ao morrer a pessoa simplesmente pode ficar presa nela mesma, em seus pensamentos e atitudes, vagando por entre memórias e devaneios. De certa forma, esse tema sempre me impressiona, mas gostei muito da maneira como isso foi exposto no livro,como os personagens deram espaço ao Smurov e como seus sentimentos, por vezes divertidos ou um pouco desesperados, foram abordados. Cada personagem existente na história nos apresenta uma versão de Smurov, o que nos faz chegar a outra calorosa discussão: todo ser humano tem um pouco de bondade e maldade. Ao menos, eu tive essa impressão de que nosso amigo Smurov não era uma pessoa boa ou má, era uma pessoa como todas as outras, que cometeu seus erros e teve seus momentos de felicidade genuína. 

Mais informações:
Titulo:O Olho
Editora: Alfaguara
Páginas: 112
Ano: 2011
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8 comentários:

  1. Eu também leio sempre, mas é normal ter aqueles dias cheios que não temos tempo pra nada... o livro parece um pouco triste, mas interessante. Parece uma leitura um pouco pesada, mas nada que um pouco de esforço não resolva.
    Tomara que nos próximos dias tu poste uma resenha de algo que eu tenha lido, dai podemos fazer um debate aqui nos comentários, haha
    Sucesso.

    Giovani
    http://urbanacult.blogspot.com.br/

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    1. Detesto esses dias em que não consigo ler nada!
      Esse livro é muito bom, mesmo sendo meio pesadinho. hehe

      Estou lendo Cem Anos de Solidão, que provavelmente será tema do próximo texto. Já leu???? hehe

      Abraços!

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  2. Oi!
    Esse tema de morte e vida após a morte me assusta e interessa ao mesmo tempo...
    Gostei da resenha, como sempre.

    Escrevi sobre o seu blog lá no meu blog, se puder, passa lá.. :)

    http://resenhasdalu.blogspot.com.br/

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    1. Ah, que linda! Obrigada, e adorei o texto (como sempre, hehe).

      Grande beijo!

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  3. Olá, Rita :D
    Nunca tinha ouvido falar sobre esse livro do Nabokov e só a sua resenha já me fez ficar interessada! Me pareceu um livro mais leve do que Lolita (que eu tenho um certo medinho de ler no momento errado) e muito mais parecido com meu estilo de leitura. Curti muito a resenha e a diversidade de livros no seu blog.
    Beijos :*
    http://ourivesdaspalavras.blogspot.com.br/

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    1. Sim, bem mais leve que Lolita e ainda assim incrível.Também recomendo! Você tem interesse em ler Lolita?
      Ah, obrigada. Eu realmente leio de tudo um pouco, acho que isso sempre me acrescenta muito. E acaba acrescentando pro blog e pro canal também!:D
      Adorei sua companhia por aqui, Mari.
      Beijão! <3

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