Do eu falo quando eu falo de corrida - Haruki Murakami


Quando pensamos nesse aclamado escritor japonês não podemos deixar de imaginar coisas fantásticas - como um mundo com duas luas, por exemplo. Mas aqui temos uma proposta diferente, na verdade esse livro que ele escreve aos poucos entre o verão de 2005 e o outono de 2006,  é um relato pessoal. Confesso que quando soube que ele havia escrito um livro desse estilo sobre corrida, fiquei curiosa e ao mesmo tempo desconfiada: "hum, será que o Murakami  fez disso algo que realmente vale a pena ser lido?" Depois que ganhei esse livro de presente, não via a hora de pegá-lo para ler e matar a curiosidade. E posso dizer que me surpreendi muito e adorei cada página.

Como sabemos, Murakami é famoso pela sua trilogia "1Q84" (que eu amo com todas as forças), e também pelos romances "Minha Querida Sputnik" e "Norwegian Wood", e tantos outros que ele já escreveu. O cara é demais!

Enquanto era estudante, Murakami tentava encontrar formas de ganhar dinheiro. Aos 30 anos resolve abrir um bar, sem qualquer previsão para o futuro, sem qualquer noção se daria certo ou não. Trabalhando loucamente durante a noite, descansando pouco durante o dia, o nosso querido escritor não tinha tempo nem para pensar direito. De repente, ele teve um insight enquanto assistia um jogo: "Eu poderia escrever um romance", ele pensou. Logo que o bar começou a ir bem, ele contratou pessoas para fazerem uma parte do serviço para ele, e assim sobrava um tempinho de madrugada para escrever. Foi assim que ele começou.

Quando seu primeiro romance foi publicado (Hear The Wind Sing), recebendo boas críticas, ele decide largar o bar de vez e se dedicar a escrita. Porém, isso resultava em um pequeno problema: Murakami é uma pessoa propensa a engordar e trabalhando como escritor, sentado boa parte do tempo, logo ganharia peso. Teria que pensar em algo para que pudesse se manter saudável. E podemos perceber que se manter saudável, de corpo e alma, é algo essencial para o escritor. Pensou: "Posso correr." E correu. E corre até hoje.

Esse livro não é nada mais nada menos do que histórias que o Murakami nos conta sobre ele mesmo, sobre suas corridas, sobre as dificuldades e felicidades que a corrida trouxe para sua vida. Ele conseguiu o equilíbrio perfeito entre a atividade física e a atividade mental, com seu próprio ritmo. O exercício de correr trouxe inúmeros benefícios para a sua saúde e para seu trabalho como escritor: ele consegue desenvolver mais sua concentração e atenção. A corrida virou sua religião. E por mais incrível que pareça, ele conseguiu escrever sobre essas coisas com maestria. Meus aplausos para Murakami (mais uma vez).

Confesso que sou uma pessoa que detesta esportes. Seja lá qual for, tô fora! Prefiro ficar sentada lendo/assistindo filmes/séries o dia todo do que praticar qualquer coisa. Contudo, me identifiquei com o Murakami justamente por ele ser exatamente esse tipo de pessoa. Mas em um determinado momento ele saiu em busca de algo que tivesse a ver a personalidade solitária dele, e encontrou algo que, de coração, o fazia sentir bem consigo mesmo. De fato, é um livro que vale muito a pena ser lido. Ainda mais pra quem é fã dele. 

Enfim, tudo o que tenho para deixar aqui agora são as passagens fantásticas desse livro. Apreciem.
"Os pensamentos que me ocorrem quando estou correndo são como nuvens no céu. Nuvens de todos os tamanhos diferentes. Ela vêm e vão, enquanto o céu continua o mesmo céu de sempre. As nuvens são meras convidadas que passam e vão embora, deixando o céu para trás. O céu existe ao mesmo tempo em que não existe. Possui substância e ao mesmo tempo não. E nós meramente acolhemos essa vasta expansão e nos deixamos embriagar."
"À medida que envelheço, contudo, pouco a pouco vou percebendo que esse tipo de sofrimento e mágoa é uma parte necessária da vida. Se você pensa a respeito, é precisamente por serem diferentes umas das outras que as pessoas são capazes de criar seus próprios eus independentes. Tomem a mim como exemplo. É precisamente minha capacidade de detectar determinados aspectos de uma cena que outras pessoas não conseguem, de sentir de forma diferente dos outros e de escolher palavras que são diferente das deles que me permite escrever histórias que sejam minhas e de mais ninguém. (...) Então o fato de que sou eu e nenhum outro pe um dos meus maiores recursos. A mágoa emocional é o preço que a pessoa deve pagar a fim de ser independente."
"A maioria das pessoas enxergam apenas a realidade superficial da escrita e acha que os escritores vivem silenciosamente concentrados em um trabalho intelectual em seu gabinete ou escritório. Basta ter força para erguer uma xícara de café, imaginam, que você pode escrever um romance. Mas assim que arregaça as mangas para começar, percebe que não é um trabalho tão tranquilo como parece. O processo todo - sentar em sua mesa, concentrar sua mente como se fosse um raio laser, imaginar alguma coisa em um horizonte vazio, criando uma história, escolhendo as palavras certas, uma a uma, mantendo todo o fluxo da história nos trilhos - exige muito mais energia, por um longo período, do que imagina a maioria das pessoas. Pode ser que você não mova seu corpo de um lado para o outro, mas há um exaustivo e dinâmico trabalho operando dentro de você. Todo mundo usa a mente quando pensa. Mas um escritor veste um traje chamado narrativa e pensa com todo o seu ser; e para o romancista esse processo exige pôr em ação toda a sua reserva física, geralmente ao ponto de estafa."
  Murakami decidiu correr 100Km em uma ultra-maratona (algo bem insano, por assim dizer), começando bem cedinho e terminando antes do anoitecer. O resultado dessa corrida, a história que ele nos conta sobre essa experiência é muito incrível. 
"Como estava no piloto automático, se alguém me dissesse para continuar a correr talvez eu fosse além dos cem quilômetros. É estranho, mas no fim eu mal sabia quem eu era ou o que estava fazendo. Isso deveria ser uma sensação muito alarmante, mas não foi assim que me senti. Nessa altura, correr adentrara o território da metafísica. Primeiro vinha a ação de correr, e acompanhando-a estava essa entidade conhecida como eu. Corro, logo existo."
Entre muitas outras experiências com corrida, escrita, música, com a vida em geral, Murakami nos conquista com sua narrativa simples e sincera. Além disso, saber um pouco mais sobre ele, por suas próprias palavras é algo encantador. Já o admirava muito, mas depois desse livro passei a admirá-lo mil vezes mais.

Por fim, a edição que eu tenho é de 2010 pela editora Alfaguara, e foi traduzida de uma edição norte-americana pelo Cássio de Arantes Leite. Ela é bonita, com uma diagramação confortável mas pecou um pouco na revisão, encontramos uns errinhos bobos no meio do caminho. Mas ok, nem tudo é perfeito. Só estou um pouco preocupada com os outros livros dele que a Alfaguara publicou, será que tem os mesmo errinhos bobos? Espero que não.

Mais informações:
Titulo: Do que eu falo quando eu falo de corrida
Autor: Haruki Murakami
Editora: Alfaguara
Páginas: 150
Ano: 2010
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2 comentários:

  1. Depois dessa resenha, mais um livro do Murakami vai pra lista dos desejados. E olha que eu ainda não tenho nenhum :( Por qual recomenda que eu comece a leitura?
    Sua resenha ficou maravilhosa, parabéns :D
    Beijos :*
    http://ourivesdaspalavras.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Oi, querida!
      Sempre recomendo Murakami por onde eu comecei: trilogia 1Q84. É incrível! Se você gosta de fantasia, essa trilogia e´perfeita.
      Mas também super recomendo esse livro porque é um relato do autor, e com certeza, vai te deixar curiosa para ler as obras que ele mesmo cita aí. Uma ótima leitura.
      Beijão, linda! <3

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