Notas do Subsolo - Fiódor Dostoiévski


Enquanto lia calmamente as páginas desse livro, um pensamento vagava pela minha mente: como é possível escrever algo que ecoa tão profundamente na mente humana. É assustador. A experiência de vida do nosso personagem principal, que infelizmente não temos a honra de sabermos seu nome, é revirada por pensamentos dos mais diversos tipos. 

O livro é como se fosse um diário, um caderno de notas dividido em duas partes, sendo a primeira apenas uma apresentação de como o nosso personagem é um homem profundo, pensativo, amargurado e perdido. Ele escreve sobre os mais loucos devaneios, criticando a sociedade, criticando autores, e criticando a si próprio. Segundo a tradutora da obra, Maria Aparecida Botelho Pereira Soares:
"Seu tom é agressivo, hostil e provocativo, o que é atestado por um grande número de palavras injuriosas e de conotação negativa, utilizada contra seus adversários ideológicos e também contra si próprio."
 Esse tom que ele usa em praticamente toda a primeira parte, me agradou muito. Me deixou muito claro o tipo de personalidade e mente perturbada que ele tinha, expondo seus pensamentos dessa maneira cruel. Apesar disso, me diverti muito. O tom agressivo chegava a um ponto absurdo, e em muitas vezes, era impossível não rir com seus pensamentos. Por outro lado, também era impossível não sentir pena dele.
"Finalmente, até se eu não quisesse ser de maneira alguma generoso e, ao contrário, desejasse me vingar do meu ofensor, eu não conseguiria me vingar de nada e de ninguém, porque provavelmente não me decidiria a fazer o que quer que fosse, mesmo se pudesse."
Achei essa primeira parte extremamente interessante. Alguns momentos ficava tão absorta na leitura de seus pensamentos que me esquecia dos meus próprios. Em outros momentos, era difícil acompanhar seu raciocínio. Já na segunda parte, é impossível de largar o livro. Fui lendo tão devagar, degustando, porque estava adorando aquilo. Nessa parte, ele narra alguns pequenos fatos de sua vida. Situações embaraçosas, engraçadas até. Ele se mete em confusões, e eu cada hora defendia um dos personagens, ora era o nosso personagem, ora eram seus amigos. Ele diz cada coisa as pessoas ao seu redor, que eu acabava por ficar com pena delas também, mesmo sabendo que ninguém havia sido legal com nosso personagem.
"Fiquei um minuto sozinho. Desordem, restos de comida, um cálice  quebrado no chão, vinha derramado, pontas de cigarro, embriaguez e cabeça confusa, uma angústia torturante no coração e, por fim, um lacaio que tinha visto e ouvido tudo e me lançava olhares curiosos."
Enfim, uma das coisas que ele narra é sobre um jantar que seus amigos irão para se despedir de um certo fulano, e ele mesmo se convidou a ir, mesmo percebendo que seus "amigos" não se importavam com ele, aliás, as pessoas não gostavam da companhia dele, é claro. Mesmo assim, encabuladas, o aceitaram no grupo do jantar. Ele chegou ás 17h, e o jantar havia sido remarcado para as 18h, ninguém o havia avisado, ah, isso foi quase o fim do mundo! O mais engraçado é que ele vê coisa ruim em todas as pessoas, ele sempre acha que estão zombando dele, humilhando ele. E como uma pessoa "livresca", ele sempre queria ser o herói, e isso nunca acontecia. Pelo contrário, ele tem todas as características de um anti-herói.

Certa vez, ele foi obrigado a dar passagem a um coronel, que passou por ele sem nem notá-lo, tampouco pediu licença. Ah, aquilo foi a pior humilhação pra ele, e então, seu maior plano de vida era fazer com que o coronel desse passagem a ele, ou esbarrar de vez no coronel só para não deixá-lo passar. E ele articula planos, soa, não dorme, e articula mais planos, fica febril, persegue o coronel... E por aí vai. Ás vezes, eu tinha plena certeza de que ele era uma pessoa totalmente maluca, não conseguia se desfazer de certos pensamentos que o atordoavam, não conseguia se controlar.

Ele nos conta que desde a época da escola se sentia superior aos seus colegas, simplesmente porque conhecia coisas que eles desconheciam, devido ao seu interesse pela leitura. Porém, parece que ninguém liga para isso, e ainda zombam dele por conta da sua inteligência. Entretanto, por mais superior que ele se veja perante os outros, não tem absolutamente nada na vida. Envergonha-se de ser pobre, mas não faz nada para mudar sua realidade, pelo contrário, parece até que se afunda cada vez mais na pobreza.

Sobre o "subsolo", eu entendi que era algo de dentro dele, era como um refúgio, um lugar onde ele poderia ficar em paz consigo mesmo, ou quase isso, já que era impossível ele ficar em paz. Chega a ser algo poético para uma alma tão perturbada como a dele. "Já então eu trazia na alma o meu subsolo. Sentia um medo terrível de ser visto e reconhecido, pois andava por vários lugares bastante sórdidos."

Cheguei a desejar abracá-lo, pensei: ah, tudo que ele precisa é de alguém que o abrace! Afinal, para a minha surpresa, isso acontece e a reação dele...  

Enfim, só posso dizer coisas boas desse livro. O personagem principal é muito interessante, duvido que alguém não vá se interessar pelos seus pensamentos. Tinha certo receio de ler Dostoiévski porque muita gente importante elogia muito, afinal, é um clássico, mas eu tinha medo de não gostar desse mega-clássico ou não me interessar o suficiente (afinal, já larguei a leitura uma vez), mas é simplesmente fantástico. Me sinto obrigada a dizer (assim como muitos já disseram) que ele é um gênio mesmo. Já estou ansiosa para ler "Crime e Castigo" e "Memórias da Casa dos Mortos".

"É possível alguém ser inteiramente sincero consigo mesmo e não temer toda a verdade?"


Mais informações:
Titulo: Notas do Subsolo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Páginas: 160
Ano: 2008
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5 comentários:

  1. Oi!
    Sempre senti vontade de ler Dostoiévski, mas passa pela cabeço o mesmo que você relatou...
    Afinal, é um clássico.
    Mas, depois dessa resenha me sinto mais segura e acho que vou começar pelo Notas do Subsolo mesmo...rs :)
    Parabéns pelo post, de muita qualidade, como sempre!!!
    Bjs, Lu - http://resenhasdalu.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Lu! Obrigada!

      Que bom que se sente mais segura. Acho que é importante nos sentirmos assim para começar e ler algo, especialmente um clássico, né?! Esse livro é altamente recomendado, muito bom mesmo!

      Boa leitura!
      Beijos!

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  2. Oi Rita, gostei muito do seu comentário. Sabe que comigo aconteceu o mesmo. Os personagens de Dostoiéviski são tão densos que chega um momento da leitura você se acha afundando com eles. Dependendo do estado de espírito você afunda mesmo. Vou retomar minhas leituras dostoiéviskianas o quanto antes.
    Abraço.
    Michele

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    1. Sim, concordo plenamente. Os personagens te absorvem de um jeito louco, assustador até. A narrativa é muito envolvente! Eu amei a experiência dessa leitura.

      Abraços, querida!

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  3. Humm, estou com esta obra em meu Kobo, está na lista de próximas leituras. Como você diz, muitos recomendam Dostoiévski, e nunca li nada dele. Adoro Clássicos. Gostei muito do seu blog, fotos muito bem boladas e bonitas. Parabéns! ;)
    Do Que Eu Quero
    O Que Tem na Nossa Estante

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