Emboscada no Forte Bragg

Tom Wolfe é considerado um dos fundadores do chamado new journalism, que se trata de um gênero jornalístico (ou seria literário?), surgido na imprensa dos Estados Unidos na década de 60. A característica  marcante deste gênero é misturar a narrativa jornalística com a literária, ou explicando de outra maneira, construir uma reportagem com requintes literários. O texto jornalístico ao qual estamos acostumados a ler diariamente segue um padrão, o de ser claro, simples e direto. Tom Wolfe e uma turma de outros escritores (Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote, entre eles) romperam com este padrão/modelo de texto. Uma matéria sobre uma exposição de carros personalizados - escrita por Wolfe e publicado na revista Esquire em 1965 - é considerada como um dos marcos para o new journalism. Há, no entanto, quem considere outros textos como 'o pioneiro' do gênero, não me arrisco opinar quem foi o criador de todo, mas Tom Wolfe está na turma que deu o pontapé inicial. 

O que esse grupo fez foi escrever sobre não-ficção, como se fosse ficção. Neste conceito saiu obras como A Sangue frio - Truman Capote; Os Eleitos - Tom Wolfe; A Mulher Do Próximo - Gay Talese; entre outras.  Tom Wolfe depois de vários livros de não-ficção, estreou (e que estreia!) na ficção em 1987, com A Fogueira das Vaidades. O livro que comento a seguir... também é uma ficção e saiu no Brasil pela editora Rocco em 1998.

Originalmente, Emboscada no Forte Bragg foi publicado por capítulos, na revista Rolling Stone a partir de dezembro de 1996. O primeiro capítulo se inicia com a descrição minuciosa de dois dos personagens principais, o produtor Irv Durtscher, e a apresentadora do telejornal "Dia & Noite", Mary Cary. Grosseiramente, resumo da seguinte maneira: Irv, alguém desajeitado, que não se veste bem,  acima do peso, "em suma, um sujeito de aspecto desleixado". No entanto, é o cérebro por trás da telejornal; a loira Mary, mesma idade de Irv, porém uma mulher que se veste bem, muito elegante, oposto de Irv (confesso que pela descrição, imaginei um mulher mais bonita que a da capa do livro). 

O enredo central do livro é em torno do assassinato de Randy Valentine, um soldado de um pelotão de choque dos EUA, que era gay. E, ao que tudo indica, foi morto por conta desta sua opção sexual. Irv chama para si a responsabilidade que deveria ser da justiça de seu país, a de investigar o caso. Para isso, se desloca com sua equipe até a cidade militar de Bragg Boulevard, onde instalam uma estrutura de câmeras e microfones escondidos, na boate chamada DMZ. A boate é o local frequentado pelos suspeitos do crime, Jimmy Lowe, Flory e Ziggefoos. Depois de algumas semanas de monitoramento, enfim conseguem  uma fala "incriminatória".

O autor vai nos levando a uma reflexão sobre a construção da notícia. Quem faz jornalismo já deve (ou deveria) ter refletido sobre isso. Por que se seleciona um trecho de uma entrevista e deixa-se outro de fora? Quem constrói o texto jornalístico tem uma mensagem a passar, e é em cima dela que ele trabalha. Todo um relado de bravura dos três soldados em um combate não interessa a Irv, quando o que ele quer colocar em pauta é um crime cometido por motivos homofóbicos. 

Mas... esperava um pouco mais do livro, havia criado uma expectativa grande. Fiquei com uma sensação de em alguns momentos estava lendo algo que chovia no molhado. Não deixa de ser um bom livro. E creio que pra quem não seja tão ligado em jornalismo e comunicação, a história se torna mais interessante, trazendo boas reflexões. Há um diálogo mais longo em determinado momento (entre a Mary e Ziggeffos) que nos prende bastante. Outro ponto curioso é o foto de Irv assumir de vez em quando a narrativa e ficar pensando alto pérolas, como: "Irv Durtscher, o Émile Zola das audiências, estava simplesmente apavorado".

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