O FRÁGIL TOQUE DOS MUTILADOS - ALEX SENS


Desde a primeira vez que vi esse livro por aí, me senti atraída. A capa à lá H. P. Lovecraft e o título poético, que já imprime aquele toque melancólico, me conquistaram logo de cara. Ainda mais quando soube que o autor era brasileiro, jovem e já premiado por esse seu romance de estréia. Irresistível. E novamente venho com aquele papo: é muito difícil escrever sobre um livro que gostamos muito, bla bla bla. De fato, sinto que posso ficar aqui escrevendo por horas e ainda assim, não vou conseguir transmitir tudo que essa obra me rendeu. Portanto, hoje quero tentar comentar algumas das minhas impressões enquanto lia essa preciosidade. 

O Frágil Toque dos Mutilados nos apresenta uma história pesada e intensa de uma família. E já sabemos que "as famílias felizes se parecem. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira". Com isso em mente, somos apresentados aos abismos dos personagens e é interessante o quão profundo esses abismos vão se tornando. Acabamos por sermos obrigados a olhar para os nossos próprios abismos, encarar a nossa própria complexidade emocional. Acredito que é esse um dos motivos que tornam esse livro tão dolorido e ao mesmo tempo, essencial. Eu estava precisando dessa leitura. 

Orlando e seus filhos, Tomas e Muriel, moram numa bela casa no litoral, porém a morte de sua esposa despedaçou tudo ao redor e ele se rendeu ao álcool. Magnólia, irmã de Orlando, sofre com problemas psicológicos que a tornam dependente de medicações, mas ela cansou disso, decide parar com os remédios. Elisa, a irmã mais nova, tem outros problemas mas tenta fugir deles, distorcendo e distanciando a realidade. E claro, não vamos nos esquecer de Herbert, marido da Magnólia, que tenta escrever um ensaio sobre As Ondas, de Virginia Woolf, mas a dificuldade em lidar com a mulher e com tudo ao redor o impossibilita de escrever. 

E assim, essa família se vê reunida na casa de Orlando, onde toda a história vai se desenvolvendo intensamente e mostrando um outro personagem essencial: o mar. Eu simplesmente adoro quando a ambientação tem força o suficiente para se tornar um personagem. Nesse caso, a presença constante do mar, sua poesia e sua melancolia que se une aos sentimentos dos personagens, numa mistura sublime e salgada, simplesmente me derrubou, foi um golpe e tanto. 

Entrando em contato com esses personagens, com essa ambientação, com todos os problemas e situações vividas por eles, e principalmente, com a forma como o autor nos leva a encarar tudo isso, me vi anestesiada. Porém, não foi aquele sentimento de anestesia que te apaga, foi aquela anestesia que de deixa ciente de tudo o que está acontecendo e com isso, a angústia vai tomando conta de todo o seu corpo e aos poucos te domina por completo.

Confesso que quando cheguei na metade do livro bateu uma ressaca. Sabe aquela coisa de "putz, não consigo ler nada"? Me dei conta que esse livro era a causa da minha mini ressaca literária. Fiquei uns dias afastada dele (não completamente, pois é impossível largar assim) para relaxar um pouco e refletir sobre meus sentimentos. É isso que essa obra faz, derruba tuas barreiras, te expõe por inteiro, cutuca a ferida. É uma leitura dolorida, não posso negar, porém, deliciosa. Oras, e a vida não é assim? 

Vale ressaltar o quanto a escrita do Alex Sens é bonita e consegue transmitir perfeitamente a intensidade, melancolia e peso da história, tornando os personagens tão absurdamente reais e presentes que chega a ser assustador. Eu ainda estou com a impressão de vou esbarrar no Orlando e na Magnólia assim que abrir a porta do quarto. A forma como ele expõe os personagens e seus problemas é digna de aplauso, foram várias as vezes que me senti sem ar, sem chão, preocupada, abalada, paralisada. E confesso que adorei tudo isso. 

E outra coisa que adoro também é a própria Magnólia, a bomba-relógio, a problemática, a impetuosa Magnólia. Não consigo me livrar dessa personagem (na verdade, sinto isso com todos os personagens desse livro) ela me conquistou e já faz parte de mim. Sem dúvida, uma personagem que gera controvérsias - ela própria já é assim por natureza - porém, não me senti irritada com ela, senti medo. Ficava sempre receosa com relação ao que ela ia falar, o que ela ia fazer. Sem dúvida uma personagem marcante, inesquecível. 

Gostaria de ficar aqui escrevendo sobre esse livro por mais algumas horas, mas melhor parar por aqui. Fica a dica preciosa desse livro intenso, assustador, real, dilacerante, poético e com aquela atmosfera de melancolia apagada que eu gosto tanto. Sério, vai atrás desse livro. Agora. 






EU ESTOU VIVO E VOCÊS ESTÃO MORTOS - EMMANUEL CARRÈRE


Eu não sou muito chegada em biografias. Sempre ouvi dizer "ah, você não gosta por que ainda não encontrou a biografia certa de uma pessoa que você admira muito". Em toda minha vida lembro de ter lido apenas uma biogafria: a do Kurt Cobain, pois sim, tive aquela fase adolescente rebelde que amava Nirvana com todas as forças. Deu no que deu. No entanto, essa biografia do Kurt foi tão importante pra mim naquela época que até hoje continua sendo marcante. Sinto que essa biografia romanceada do Phillip K. Dick surtirá o mesmo efeito daqui um tempo. 

Na verdade, o efeito já se deu. Já me senti completamente imersa, perdida e intrigada com esse livro. O término dessa leitura me deixou sem chão, triste e paranóica. Não há dúvidas de que me lembrarei disso daqui uns anos. Na verdade, a vontade que tenho é sentar ali e reler tudo, me deliciar e me assustar novamente com esse livro incrível. Mas ok, acho que já deu pra entender o quanto essa leitura foi legal e especial pra mim. 

Quero começar dizendo que o Phillip K. Dick, autor indispensável para leitores de Ficção Científica, sempre me chamou atenção por sua excêntricidade e quando soube que ele teria uma biografia romanceada escrita pelo Emmanuel Carrère, surtei! A vontade de ler tudo do Carrère e do Dick só aumentou, virou objetivo de vida. E nessa obra o Carrère nos apresenta um Phillip K. Dick tão próximo de nós mesmos que em vários momentos, me identifiquei com ele. Sofri com ele e meu lado paranóico e questionador se aflorou.

Me senti na cabeça do Phil, me aproximei dele e de seus problemas de uma forma como se fosse eu mesma vivendo aquilo. Admiro o Carrère por sua capacidade de ambientação e descrição sem contar as diversas vezes que ele se dirige diretamente à nós, leitores, como se isso fosse uma longa e deliciosa conversa. Há desafios que ele nos propõem entre um capítulo e outro. Achei delicioso, divertido, mesmo em um contexto um tanto quanto perturbador. Com isso, não percebi que havia sido engolida pelo livro. A atmosfera de leitura, música, exclusão e sonhos malucos na qual o Phil vivia foi irresistível, entrei ali e não queria mais sair. 

Lembrando que se trata de uma biografia romanceada, o que significa que houve partes em que o autor se deu ao luxo de interferir, inventar, sonhar. Confesso que isso me trouxe uma sensação boa, e essa dúvida que Emmanuel nos apresenta de querer saber se aquilo que ele conta aconteceu mesmo ou não, combina perfeitamente com todo o universo do Phil.

Essa questão da realidade é justamente uma das coisas que mais me atraí nos livros do Phillip K. Dick. Enquanto lia "Eu estou vivo e vocês estão mortos" senti na pele um pouco dessa dúvida que assolava nosso querido autor: isso que estou vivendo é real? O que é real? Esse tipo de coisa sempre me incomodou e acabei me identificando com as questões do Dick em vários aspectos. 

O que mais me impressionou durante a leitura, foi o fato do Phil ter tido uma irmã gêmea que morreu, e durante toda sua vida ele não parou de se questionar qual dos dois havia de fato morrido. 

"E toda a incerteza que ele sofria e que tinha servido de material para seus livros remontava à questão de saber qual dos dois era a marionete e qual era o ventríloquo. Se o mundo real era aquele onde ele acreditava viver e, feio um médium, evocaba Jane (a irmã) sob diversos disfarces divinos ou diabólicos, ou se era somente aquela tumba, aquele buraco negro, aquela escuridão eterna onde Jane vivia e imaginava seu irmão sobrevivente. Ele nada mais era do que o ator principal do sonho de uma morta. Ou então era ele quem estava morto, não Jane." 

Percebe o quanto isso é profundo, complexo, perturbador e escrito de forma incrível? O livro todo tem essa vibe de te causar sentimentos dos mais profundos e perturbadores. Não dá pra sair ileso desse livro, assim como não dá pra sair ileso dos livros escritos pelo Phillip K. Dick.







O ESPELHO DE CASSANDRA - BERNARD WERBER


Sabe quando cismamos com um livro? Sabe quando temos a sensação de que se não comprarmos aquele livro, se aquele livro não fizer parte da nossa estante para ser a próxima leitura, teremos um treco? Eu sinceramente achei que teria um treco se não comprasse esse livro. Aconteceu que eu comprei e deixei ele na estante por mais de um ano, sempre desejando ler mas nunca indo lá pegá-lo. Foi só o calor do momento. Até que achei que seria um ótimo livro pra ler nas férias, já que ele tem um aspecto frio e nublado, assim como o tempo aqui em sp durante o mês de julho. Sou dessas que gosta de combinar o livro com a estação, vai entender.

E finalmente realizei essa leitura, indo aos poucos, tentando degustar, tentando fazer qualquer coisa para gostar da história. No entanto, não aconteceu. Ao menos, não completamente. Posso dizer que teve coisas que achei interessante durante a narrativa, mas o livro como um todo não me atraiu muito. Mas vamos com calma, vou contar um pouco da história: Cassandra, uma adolescente que vive num colégio interno, começa a perceber que consegue prever o futuro. Na verdade, não é assim tão amplo, ela consegue prever apenas atentados terroristas. 

Outra coisa estranha sobre a personagem enigmática, que algumas vezes consegue te cativar e outras vezes não, ela não lembra nada do passado dela além do fato de ter presenciado a morte dos pais. Com todo esse mistério no ar, ela foge do colégio estranho e começa a viver nas ruas, vive como mendiga até chegar no lixão, também conhecido como Redenção.  Um lugar onde outros mendigos vivem, uma fortaleza, um refúgio para aqueles que não querem nem ouvir falar em burgueses. 

Nesse lugar, ela começa a se relacionar com esses outros personagens mendigos, que ganham muita importância na narrativa e na resolução dos problemas. E é durante essa sua estadia na Redenção que comecei a perceber que não estava gostando quase nada desse livro. Por outro lado, esse lugar, os personagens e as situações pelas quais viviam me causavam efeitos físicos. Fiquei enjoada e muito incomodada com uma cena envolvendo ratos. E cenas bizarras é o que não falta! 

Portanto, fico um pouco presa nesse conflito: por um lado acho legal o livro ter me causado reações físicas (apesar de achar difícil alguém ficar indiferente à certas cenas descritas nessa história), por outro lado os personagens não me agradaram e a narrativa não tem nada de especial. Não sei se é por que estou acostumada às narrativas cativantes, poéticas, intensas, algumas peculiares, mas essa... foi sem graça. Imaginei um robô escrevendo a história. Sem emoção, sem poesia, sem sentimento. Outro lado negativo: o livro tem mais de 500 páginas, e durante a maior parte delas nada de extraordinário acontece. Não quero dizer que o ordinário seja ruim, inclusive adoro histórias relatando coisas ordinárias, mas nesse caso, estava apenas chato. 

No entanto, não foi de todo tão ruim, caso contrário não teria conseguido chegar ao final - apesar de que estava forçando um pouco sim. A história teve um desfecho interessante, e traz muitas referências literárias e principalmente, se refere bastante à mitologia grega, coisa que achei incrível. Fiquei morrendo de vontade de conhecer mais da mitologia grega a partir do que foi comentado nesse livro. 

Enfim, essa foi um experiência de leitura um pouco frustrante mas é claro que é minha opinião, minha experiência. Não quer dizer que o livro é horrível e não deve ser lido, pelo contrário, deve ser lido e deve ser discutido. Opiniões divergem por isso, enquanto na minha experiência essa leitura não foi tão boa, na sua pode ser incrível. Então, se tem vontade de ler, leia e não se esqueça de me contar o que achou.  



ENDER'S GAME O JOGO DO EXTERMINADOR - ORSON SCOTT CARD


Normalmente eu leio a introdução dos livros primeiro, sem me importar se haverá algum spoiler, ou qualquer coisa que afete minha experiência. No entanto, ao pegar esse livro resolvi que leria a introdução por último e acabou sendo a melhor coisa que fiz pois o próprio autor comenta que concorda em pular a introdução dessa história. Isso chamou minha atenção e devorei com afinco a introdução escrita pelo Orson Scott Card cinco anos depois da publicação do livro. E que bela introdução! 

Ele comenta algo muito interessante, veja só: o autor se sentiu atraído pela obra do Asimov, mas pensou que o Asimov escrevia daquela forma e criava as suas histórias incríveis de Sci-Fi pois era um cientista. Como um cara como ele, que não entendia de astronomia, matemática e fisíca quântica ia escrever uma boa história de Sci-Fi? E eis que ele percebeu que não precisa ser especialista em astronomia nem nada disso para escrever ficção. Com isso, ele usaria seu conhecimento em história!

E o tema que chamou a atenção dele foi a guerra, claro. Logo ele se imaginou como se seria formar um exército para lutar contra um inimigo alienígena. Que belo tema! Fico encantada, não consigo esconder a empolgação! Assim, deu-se inicio a ideia do Ender's Game, O Jogo do Exterminador. 

Então, já sabemos que se trata de um livro onde humanos lutam contra alienígenas, certo? Certo! Mas não só isso. Sempre fico impressionada com a profundidade dessa história. Ao longo dos capítulos vamos percebendo que o mundo tal qual conhecemos parece um pouco diferente na história, até por que houve uma guerra e a humanidade está abalada. Além disso, as famílias não podem ter mais de dois filhos e essas crianças desde cedo se veem forçadas a participar de treinamentos pesados. Os melhores, claro, são escolhidos para realizar outros treinamentos mais pesados ainda. 

Conhecemos a família Wiggin, que por abuso ou descuido teve um terceiro filho. No entanto, essas três filhos são basicamente geniais e participam de treinamentos. Mas o terceiro filho, o Ender, ah, esse sim é especial. Único. E é sobre ele que os treinadores depositam a esperança para salvar o planeta. Um peso e tanto para uma criança carregar, não é mesmo?

Vamos acompanhando todo o treinamento do Ender de pertinho, desde quando ele tinha seus 6 anos até sua adolescência e devo confessar que é impossível não se apaixonar por ele, ou não entrar de cabeça em todos as crises existenciais que o acometem ao longo do tempo. Na maioria das vezes nosso coração dói ao acompanhar o Ender pele seu caminho tortuoso, e o final traz aquela pontinha de esperança. 

Devo ressaltar que esse livro é o primeiro de uma saga, os outros títulos são Orador dos Mortos, Xenocídio e Os Filhos da Mente. Confesso que assim que terminei O Jogo do Exterminador a vontade de correr atrás e começar a ler o segundo livro  foi enorme. Não tenho dúvidas de que se trata de uma saga inteligente e única, Orson Scott Card entrou pra listinha de autores favoritos. 

E não foi à toa que ele fez parte dessa lista, a linguagem e a narrativa do livro são deliciosas e rápidas, os temas abordados e desenvolvidos dentro da história são importantes e reflexivos. Confesso que não esperava menos que isso. Orson Scott Card te permite entrar nesse universo com uma sutileza estonteante. Um livro de Ficção Científica que traz aqueles grandes questionamentos da humanidade e que aborda a questão do bem e do mal no ser humano de uma forma interessante e única, tudo do jeitinho que a gente gosta. Super recomendo!

LIVRO E FILME


Não sei se você já se deparou com o filme que tem o mesmo título, inclusive, a capa do livro é do filme, e você consegue encontrar esse filme no Netflix. Acredito que é interessante fazer uma leve comparação, talvez essa nem seja a melhor palavra até por que não gosto de ficar comparando filme e livro pois são duas linguagens diferentes que amo demais. Melhor dizer que farei alguns comentários referente ao filme, assim é melhor. 

Já devo começar dizendo que o filme é excelente e não fica devendo muita coisa aos fãs dos livros, porém, é claro que muita coisa que acontece no livro não é nem abordada no filme, mas como disse, são duas linguagens diferentes. Eu particularmente adoro o ator que faz o Ender no filme, o Asa Butterfield, achei ele perfeito e mesmo lendo o livro não conseguia me desvincilhar da imagem dele. 

O filme é dinâmico e empolgante, assim como o livro. Ambos guardam uma reviravolta incrível, porém, como eu já havia assistido ao filme antes de ler o livro, essa reviravolta não foi tão chocante como poderia ter sido. No entanto, isso não atrapalhou minha experiência com a leitura e continuo achando incrível. Com isso, só tenho elogios tanto ao filme quanto ao livro. Vale a pena ir atrás dessa leitura, assim como vale a pena sentar, pegar aquela pipoca gostosa, um refrigerante e ver o filme. 




LIVROS NOVOS | JULHO 2016


Mais um mês que despiroquei. Exagerei. Enlouqueci com relação às compras de livros, isso por que havia "prometido" para mim mesma que não iria sair comprando livros loucamente, mas ok, nem vou falar mais nada pois vocês já sabem, né... No entanto, estou extremamente feliz com essas compras, só comprei livros incríveis (não li mas já acho incrível, sou dessas) e não vejo a hora de ler tudo! 

Vamos à lista então:
- Só garotos - Patti Smith
- Os Maias - Eça de Queiroz
- A Morte do Pai - Karl Ove Knausgard
- Gigantes Adormecidos - Sylvian Neuvel
- Todos os Contos - Clarice Lispector
- Vagabond (vol. 5) - Takehiro Inoue
- Vagabond (vol. 6) - Takehiro Inoue
- Guerra e Paz - Liev Tolstói

Ufa! Foi só isso que comprei, quase nada, não é mesmo? Acho que vocês devem estar concordando comigo agora, só tem livros incrível. A lista ta tão boa, que não consigo nem escolher apenas um que mais quero ler, é muito difícil isso. Quero ler todos agora! Enfim, acredito que em Setembro vai rolar leitura coletiva de Os Maias, então, fique ligado para mais informações! Você já leu algum desses livros? Me conta o que achou! :D